Além do princípio do prazer: uma sintese

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© Roberto Girola

 

Nesta obra, Freud começa sua reflexão sobre a pulsão de morte a partir do fenômeno da transferência e dos demais fenômenos marcados pela repetição (jogos infantis, sonhos traumáticos). Tudo indica a existência de algum princípio do psiquismo que vai além do princípio do prazer. 

No capítulo V, Freud recorre à biologia para entender esse princípio que supera as teses elaborada anteriormente (cf. Dois princípios do funcionamento psíquico) sobre o funcionamento do aparelho psíquico. 

Com a I Guerra Mundial (1914-1918), aparecem numerosos fenômenos ligados a traumas de guerra, que se refletem no psiquismo dos pacientes mediante a aparição de sonhos traumáticos. Levando em conta que para Freud o sonho é uma manifestação do desejo inconsciente, se torna necessário postular a existência de um funcionamento psíquico que leva à repetição de experiências traumáticas, situado além do princípio do prazer, pois, evidentemente, nestes casos, não pode ser o prazer o elemento motivador do sonho. 

 

Freud vê o fenômeno da repetição como uma tentativa de assimilação psíquica de experiência não prazerosas, na repetição dos jogos infantis em que a criança lança longe de si um objeto, aguardando que alguém volta a apresentá-lo para ela. Nesta experiência psíquica elementar, a criança estaria elaborando a "perda" da mãe, vivenciada toda vez que esta se afasta dela. 

É contudo no fenômeno da transferência que Freud se focaliza, pois é neste campo que ele possui maiores experiências. A transferência clínica (em alemão übertragung, indica transcrição, transmissão, contagio, tradução) é relacionada ao fenômeno do deslocamento. Na transferência a energia livre da pulsão, que caracteriza o processo primário, tende a se vincular em busca de uma representação. Na transferência, experiências psíquicas não elaborada no plano consciente são "traduzidas" na relação que se estabelece entre o analista e o seu paciente. Tais experiências voltam sob forma de repetição, envolvendo afetos, sentimentos e memórias da infância. O fenômeno da repetição, presente na transferência se apresenta com algo anacrônico, pois é caracterizado pelo reviver padrões de relacionamento não marcados pela busca do prazer,  estabelecidos nas primeiras relações de objeto, na infância. O que chama a atenção aqui é a natureza compulsória da repetição, que remete a um instinto, a uma pulsão de caráter primário. 

Freud relaciona este funcionamento psíquico a uma padrão universal dos instintos, tal como estes se afiguram na vida orgânica, onde o instinto parece ter a função de re-estabelecer um estado original, anterior ao atual (inércia inerente à vida orgânica). O que chama a atenção é o fato dos instintos não serem movidos pelo princípio do prazer; o que os motiva é um constante retorno do estado orgânico para o estado inorgânico. Para compreender esse paralelo, devemos lembrar que para Freud, mente e corpo estão estritamente vinculados. O que caracteriza o ser humano é o movimento pulsional inconsciente. A consciência emerge no processo de "defesa" da pulsão inconsciente, perfazendo seu papel de mediadora entre as exigências do inconsciente (incluindo aqui as exigências superegóicas) e aquelas apresentadas pelo princípio da realidade. A pulsão inconsciente, por não poder aparecer como tal, pois traz no seu bojo uma ameaça de desprazer no embate com as exigências da realidade, é deslocada, distorcida e transferida através dos processos defensivos que se manifestam nos sintomas. Da mesma forma como a pulsão de vida estimula  o psiquismo e o move em busca de uma descara motora, e portanto de uma significação da pulsão na vida real, da mesma forma a pulsão de morte caracteriza o movimento oposto, que tende à não realização motora, à não significação da pulsão.