Encontro com Bion

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© Roberto Girola

(Junho 2001)

Depois do encontro com diferentes autores que se aproximaram da Psicanálise de forma criativa, dando origem às várias abordagens que hoje conhecemos e sobre as quais fiz algumas considerações em meus precedentes ensaios,[1] percebo que, a cada encontro, algo foi mudando em mim, assim como minhas percepções foram mudando na medida em que a análise pessoal avançava. Cada encontro vai abrindo novos horizontes. De início, havia a preocupação de entender, de encaixar uma coisa na outra, de “dar um sentido” ao emaranhado de sem sentidos que parece ser a teoria psicanalítica. Mas depois de caminhar, depois de vislumbrar as paisagens que se esboçavam nas fronteiras da Psicanálise, olho para trás e percebo que não cheguei à “terra prometida”, ainda estou perambulando no deserto do Sinai, embora enriquecido de uma série de experiências extremamente enriquecedoras.

 Preferi intitular este breve ensaio “Um encontro com Bion”. De fato poderia haver outros encontros, tão diferentes do meu, como diferentes são os nossos sintomas neuróticos e nossos funcionamentos psicóticos. Meu encontro com Bion não representa necessariamente algo sugestivo para os outros, embora tenha sido significante para mim e também questionador.

 Para dizer a verdade, o primeiro encontro foi um desencontro. Navegando na Internet, acabei acessando o site da SPAG-RJ (http://www.gradiva.com.br), onde encontrei um texto de Bion, ainda inédito no Brasil, extraído de um Seminário realizado em Paris, aos 10 de julho de 1978, um ano antes de sua morte. Para ser sincero, li o texto e não entendi absolutamente nada. Era como se uma barreira se interpusesse entre mim e esse autor. Algo me impedia de penetrar a experiência que ele tentava transmitir naquele texto. Nada se fixou em minha memória. Sabia apenas que Bion aludia a algo parecido com a experiência do artista, interrogando os ouvintes sobre qual era  sua própria construção artística.

 O dia em que fui comprar o meu primeiro livro de Bion era um sábado. Aproveitando o fato que estava no Shopping Center, entrei na fila para assistir um cinema. Como o tempo de espera era grande, comecei a ler a introdução do livro. Desde os primeiros parágrafos, percebi que estava me deparando com uma maneira de pensar absolutamente original. Diz Bion: “Nenhuma narrativa com pretensões de ser uma exposição de fatos (...) merece, realmente, enquadrar-se na categoria de ‘descrição factual’ do ocorrido”.[2] E continua: “Não atribuo à memória a importância que comumente lhe é conferida”.[3]  O motivo é simples: as distorções involuntárias, que a própria Psicanálise aponta como inevitáveis, tornam improvável qualquer relato factual. A memória seria, portanto, “tão somente uma comunicação pictórica, de uma experiência emocional”,[4] uma formulação verbal de imagens sensoriais. Talvez, para alguns, esta possa parecer uma constatação inocente e óbvia, mas, a meu ver, ela desestabiliza todo o saber, pois insere à base de qualquer formulação verbal a desconfiança de que aquilo seja apenas uma representação interna e, em última análise, um expediente para fugir da angústia do vazio que rodeia nossa ignorância. A ilusão de ter captado o real, o factual seria neste caso apenas uma tentativa psicótica de fugir do desafio que o factual nos impõe. Pois, na realidade, o que se quer evitar é de entrar em contato com a turbulência emocional que se situa à base da ignorância acerca do factual.

 Bion dedica à turbulência emocional à qual me refiro um interessante artigo,[5] no qual constata que o ser humano abomina o vazio. Por esta razão, “ele vai tentar preenchê-lo encontrando alguma coisa que entre naquele espaço que foi revelado pela sua ignorância”.[6] O problema, de fato, é saber tolerar a frustração, o senso de vazio e a angústia que a ignorância nos impõe. Neste sentido, se a frustração não for suportada, alerta Bion, todo saber “científico” pode se tornar um simples tapa-buraco, incluso a Psicanálise. Isto me levou a perceber, desde o primeiro dia em que me deparei com a complexa trama do pensamento bioniano, que, por trás, havia não apenas uma simples teoria, mas uma postura existencial extremamente desafiadora.

 Compreender Bion tornou-se, portanto, para mim, um desafio a não querer “possuir” o seu pensamento, aceitar a minha ignorância, o meu não saber, inclusive psicanalíticos. E aqui chegamos inclusive a compreender um pouco mais a postura clínica de Bion, em que desejo e memória são questionados. Um bom analista deve saber ser tolerante à frustração, sabendo “suspender” sua memória e seu desejo. “Não há lugar para o desejo na análise; não há lugar para a memória (...). O desejo de ser um bom analista é um obstáculo para que se seja um analista”.[7]  Embora bastante conhecida e citada, esta frase não deixa de ser paradoxal e desafiadora. Isto significa, por exemplo, que o analista deve prescindir na análise do desejo de “cura”, mesmo porque o conceito de cura implica no conceito de sanidade e na tentativa de encaixar o paciente num esquema teórico de sanidade. A presença do desejo também cria uma cisão, excluindo tudo o que não se encaixa no desejo do analista, e reduzindo assim o campo da escuta. Existe depois a tentação de encaixar o que o paciente está dizendo nas teorias aprendidas, disparando, a seguir, em cima dele, uma “interpretação” cientificamente correta, baseada em alguma memória.

 Voltei a ler, seis meses depois, o texto do Seminário realizado em Paris. Desta vez, o texto se abriu e me pareceu extremamente interessante. Nele Bion observa que estamos acostumados “à idéia de que a Psicanálise é uma tentativa de fazer uma abordagem científica da personalidade humana”. Mas, ele se pergunta, será que o analista lembra que está lidando com gente de carne e osso (real people). Neste texto Bion afirma existir um grande risco de que a experiência analítica se torne algo desumanizante. Para que não o seja o analista deve saber suportar os objetos cindidos, os escombros (que Bion define como objetos bizarros)[8] que se apresentam na fala do paciente e que se amontoam no seu consultório (que, aliás, Bion chama de ateliê de um artista). Nada pode ser descartado, tudo precisa ser observado e examinado com muito cuidado, caso contrário o analista poderá “jogar fora a necessária centelha vital”, que se encontra escondida no meio dos escombros. Será esta fagulha, a capacidade de reverie do analista, que pode fazer com que as cinzas de uma relação analítica se tornem uma fogueira, favorecendo a transformação dos elementos Beta em elementos Alfa, em algo que pode ser pensado pelo paciente.[9] É neste sentido que o analista deve ser um artista, capaz de mostrar algo que os outros não conseguem ver. Bion chega a dizer que, se o analista não for um artista, está na profissão errada.

 Esta capacidade de escuta do analista, não apenas limitada ao contexto verbal, me impressionou nos seus textos, onde muitas vezes a presença dos objetos cindidos era captada pela simples presença de uma mudança física no paciente, uma mudança sutil, às vezes na respiração, no tom muscular, no olhar, na maneira de sentar-se no divã.[10] Isto é muito importante, pois há no paciente psicótico uma grande dificuldade em relação à linguagem verbal.[11]

 Para concluir, gostaria de mencionar outro elemento que me chamou a atenção no pensamento bioniano. A diferenciação entre o que é right (certo) e o que é true (verdadeiro). Do ponto de vista filosófico a diferenciação entre esses dois níveis depende dos pressupostos metafísicos adotados. Se acreditarmos na possibilidade da própria Metafísica, é de alguma forma possível definir o que é bom e, portanto certo (right) do ponto de vista moral, a partir da essência do Ser. Neste sentido o certo e o verdadeiro coincidiriam.  Mas, se negarmos este poder onipotente à Metafísica, então fica difícil estabelecer uma relação entre o que é certo (right) e o que é verdadeiro (true). Para Bion o que caracteriza o pensamento psicótico é a onisciência, que substitui a discriminação entre  verdadeiro e o falso “por uma afirmação ditatorial de que uma coisa é moralmente certa e outra errada”.[12] Haveria portanto “um conflito em potencial entre afirmar-se que algo é verdadeiro e afirmar-se que algo é moralmente superior”.[13] Isto porque “a pretensão de uma onisciência que negue a realidade, seguramente faz com que a moralidade, que nessas condições se forma, seja uma função da psicose”.[14]  Fica portanto pairando no ar um grande questionamento sobre o valor das normas morais, pois a perspectiva bioniana parece partir do pressuposto que a moral se baseia em princípios categóricos (no sentido kantiano) e não numa adequação do ser às leis que o regem,[15] Bion parece aqui frisar a impossibilidade ou, pelo menos, a dificuldade para o  ser humano de ter acesso ao Ser. Resta de fato a grande questão de saber se o que é real para mim é também real para o outro, ou, dito de outra forma, se o que eu considero real não é apenas uma alucinação do real. Isto joga o ser humano na necessidade de estar constantemente aberto para discernir o que é verdadeiro daquilo que é falso, sabendo porém que nunca poderá afirmar com certeza que aquilo que é verdadeiro para ele é também o certo.

 

[1] Os meus precedentes ensaios foram publicados no site http://sites.uol.com.br/rgirola.

[2] W. R. Bion, Estudos psicanalíticos revisados, Imago, Rio de Janeiro, 1994, pp. 9-10.

[3] Id., Ibid., p. 10.

[4] Id., Ibid.,  p.10.

[5] W. R. Bion, “Turbulência emocional” in Revista Brasileira de Psicanálise (21, 1987), pp. 121-141.

[6] Id., Ibid., p. 129.

[7] W. R. Bion, “Comentário” in Estudos psicanalíticos revisados, Imago, Rio de Janeiro, 1994, p. 174.

[8] No objeto bizarro cada partícula “é vivida como consistindo num objeto real que está encapsulado no pedaço de personalidade que o engoliu” (cf. W. R. Bion, “Diferenciação entre a personalidade psicótica e a personalidade não-psicótica” in Estudos psicanalíticos revisados, Imago, Rio de Janeiro, 1994, pp. 60-61)

[9] Cf. W. R. Bion, “Uma teoria sobre o pensar” in Estudos psicanalíticos revisados, Imago, Rio de Janeiro,  1994, p. 133.

[10] Cf., por exemplo, W. R. Bion, “Sobre alucinação” in Estudos psicanalíticos revisados, Imago, Rio de Janeiro, 1994,, pp. 81; 85 e “Diferenciação entre a personalidade psicótica e a personalidade não-psicótica” in Estudos psicanalíticos revisados, Imago, Rio de Janeiro, 1994, pp. 66-68.

[11] Cf. W. R. Bion, “Notas sobre a teoria da esquizofrenia” in Estudos psicanalíticos revisados, Imago, Rio de Janeiro, 1994,, pp. 34 e 44.

[12] W. R. Bion, “Uma teoria sobre o pensar” in Estudos psicanalíticos revisados, Imago, Rio de Janeiro, 1994, p. 131.

[13] Id., Ibid.,  pp. 131-132.

[14] Id., Ibid.,  p. 131.

[15] Sobre este tema pode ser interessante a leitura do livro do filósofo Alasdair MacIntyre, Justiça de quem? Qual racionalidade?, Loyola, São Paulo, 1991, uma continuação do famoso After virtue, do mesmo autor e uma tentativa de “restituir a racionalidade e a inteligibilidade às nossas atitudes e compromissos morais e sociais” (p. 7).