Giordano Bruno

Filosofia Insights Psicanálise Cibercafé

 

O mito de Actéon

Tansílio. Assim se descreve o discurso do amor heróico, por tender ao próprio objeto, que é o sumo bem, e o heróico intelecto que procura unir-se ao próprio objeto, que é o verdadeiro primal ou a verdade absoluta. Ora, no primeiro discurso apresenta toda a soma disso e a intenção, cuja ordem é descrita nos cinco outros que seguem. Diz então:

                 Às selvas os mastins e galgos solta

            o jovem Actéon, quando o destino

            Apresenta-lhe o dúbio e incauto caminho,

            nas pegadas de feras selvagens.

                Eis entre as águas o mais belo busto e face

            que ver possa o mortal e o divino,

            em púrpura, alabastro e ouro fino

            vê, e o grande caçador se torna caça.

                O cervo que em espessos lugares dirigia

            os mais ligeiros passos, é raptado

            e por seus muitos e grandes cães devorado.

                Estendo-lhe meus pensamentos

            como nobre presa, e eles, voltando-se,

            devoram-me com ferozes e cruéis mordidas.

             Actéon significa o intelecto desperto, à caça da sabedoria divina, à apreensão da beleza divina. Ele solta os mastins e os galgos. Estes são os mais velozes, aqueles, os mais fortes. Com efeito, a operação do intelecto precede a operação da vontade; mas esta é mais vigorosa e eficaz do que aquela; ao intelecto humano é mais amável do que compreensível a bondade e a beleza divina, mas o amor é aquilo que move e impele o intelecto àquilo que o precede, como lanterna. Às selvas, lugares incultos e solitários, visitados e perscrutados por pouquíssimos e, todavia, onde não estão impressas as pegadas de muitos homens. O jovem, pouco esperto e prático, como aquele cuja vida é breve e instável o furor, no dúbio caminho da incerta e ambígua razão e afeto desenhado no caráter de Pitágoras,1 onde se vê mais espinhoso, inculto e deserto o direito e árduo caminho, e por onde este solta os galgos e mastins nas pegadas de feras selvagens, que são as espécies inteligíveis dos conceitos ideais; que são ocultas, perseguidas por poucos, visitadas por raríssimos, e que não se oferecem a todos os que as procuram. Eis entre as águas, isto é, no espelho das semelhanças, nas obras onde reluz a eficácia da bondade e esplendor divino, cujas obras são significadas pela sugestão das águas superiores e inferiores, que estão sob e sobre o firmamento; vê o mais belo busto e face, isto é, potência e operação externa que ver possa, por hábito e ato de contemplação e aplicação de mente mortal e divina, algum homem ou deus.

             Cícada. Creio que não faça comparação, mas ponha como no mesmo gênero a apreensão divina e humana quanto ao modo de compreender, que é diversíssimo, mas quanto ao sujeito, que é o mesmo.

             Tansílio. Exatamente. Diz em púrpura, alabastro e ouro, porque aquilo que na figura de corporal beleza é vermelho, branco e louro, na divindade significa a púrpura da divina potência vigorosa, o ouro da sabedoria divina, o alabastro da beleza divina, na contemplação da qual os pitagóricos, caldeus, platônicos e outros, do melhor modo que podem, procuram se elevar. Vê o grande caçador: compreendeu, o quanto é possível; e se torna caça: este caçador andava para predar e se torna presa, por causa da operação do intelecto com a qual converte em si mesmo as coisas apreendidas.

             Cícada. Entendo, porque ele forma as espécies inteligíveis a seu modo e as proporciona conforme sua capacidade, porque são recebidas segundo o modo de quem as recebe.

             Tansílio. E esta caça [é] para a operação da vontade, por ato da qual ele se converte no objeto.

             Cícada. Entendo; porque o amor transforma e converte na coisa amada.

             Tansílio. Bem sabes que o intelecto apreende as coisas inteligivelmente, idest conforme seu modo;2 e a vontade persegue as coisas naturalmente, isto é, segundo a razão com a qual estão em si. Desse modo, Actéon, com aqueles pensamentos, aqueles cães que procuravam fora de si o bem, a sabedoria, a beleza, a fera selvagem, e no modo pelo qual chegou à presença dela, raptado para fora de si por tanta beleza, torna-se presa, vê-se convertido naquilo que procurava. e percebeu que dos cães de seus pensamentos ele mesmo vem a ser a desejada presa, porque tendo já encontrado a divindade em si mesmo, não era mais necessário procurá-la fora de si.

             Cícada. Portanto, bem se diz que o reino de Deus está em nós,3 e que a divindade habita em nós por meio do intelecto e da vontade transformados.

             Tansílio. Exatamente. Eis, portanto, como Actéon, colocado como presa de seus cães, perseguido por seus próprios pensamentos, corre e dirige os novos passos; é renovado para proceder divinamente e mais agilmente, isto é, com maior facilidade e com energia mais eficaz, a lugares mais espessos, aos desertos, à região de coisas incompreensíveis; aquele que era um homem vulgar e comum, torna-se raro e heróico, tem costumes e conceitos raros, e experimenta uma vida extraordinária. Aqui o devoram seus muitos e grandes cães: aqui termina sua vida segundo o mundo louco, sensual, cego e fantástico, e começa a viver intelectualmente; vive uma vida de deuses, nutre-se de ambrosia e embriaga-se de néctar.