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Tommaso Campanella |
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A doutrina do conhecimentos1. A autoconsciência e a
superação da dúvida
A alma conhece a si mesma com um conhecimento de presencialidade, e não
com um conhecimento objetivo, exceto sobre o plano reflexo. É certíssimo
primeiro princípio que somos e podemos, sabemos e queremos; depois, em segundo
lugar, é certo que somos alguma coisa e não tudo, e que podemos conhecer
alguma coisa, e não tudo e não totalmente. Depois, quando do conhecimento de
presencialidade se procede aos particulares por um conhecimento objetivo começa
a incerteza, pelo fato de que a alma se torna alienada, por causa dos objetos,
do conhecimento de si, e os objetos não se revelam totalmente e distintamente,
mas parcialmente e confusamente. E, na verdade, nós podemos, sabemos e queremos
o outro porque podemos, sabemos e queremos a nós mesmos.
A sabedoria inere a nós pelo Autor da natureza, e é dada como a potência
e o amor de ser; a ciência, ao contrário, é adquirida acidentalmente através
da sabedoria enquanto olha os entes que exteriormente estão diante de nós.
O que conhecemos é uma mínima parte diante daquilo que ignoramos, mas
saber isto é suma sabedoria para nós, e ela nos convida e nos impele a aceitar
o ensinamento de Deus. 2. “Notitia indita” e
“notitia abdita”
O conhecimento de si mesmo é impedido pelo conhecimento do outro;
com efeito, somos gerados entre entes contrários, e somos passivos diante do
calor e do frio e de numerosos objetos e, portanto, nos transferimos quase no
ser do outro, uma vez que o ser passivos e ser mudados é tornar-se outro; a
alma, portanto, cai no esquecimento e na ignorância de si porque é sempre
sacudida pelas forças do alto.
O acrescentamento do ser alheio, múltiplo e veemente, com o próprio e
único ser produz nos entes uma evidente ignorância de si mesmos e permite
apenas um saber escondido sobre si mesmo; [todavia, permanece sempre verdadeiro
que] toda alma conhece a si mesma com um conhecimento inato.
3. Conhecimento e verdade
A ciência de Deus é causa das coisas; a nossa, ao contrário, é
causada; é causa nos limites das coisas excogitadas por nós.
Como a verdade é dada pelo conhecimento adequado entre as coisas a a
alma sensiente-inteligente, e como tal conhecimento parte das coisas, criadas e
existentes e dispostas pelo sumo Criador no modo com que devem ser conhecidas,
deduzimos que os significados das coisas devem ser assumidos das próprias
coisas da experiência, e que devem ser determinadas como são, e de modo nenhum
segundo o que a nossa razão dita.
A verdade é a própria entidade da coisa, como ela é, e não como nós
a imaginamos. Todas as coisas são chamadas de verdadeiras enquanto se adequam
ao intelecto divino, do qual recebem o ser, enquanto na verdade se adequam a
nosso intelecto, não são ditas verdadeiras, mas produzem em nós a verdade; nós,
porém, somos verdadeiros se conhecemos a coisa como ela é.
O intelecto humano não mede as coisas, das quais não é o autor; mas é
medido pelas coisas, e é verdadeiro quando se assimila a elas para entendê-las
como elas são; e não de outra forma. 4. Conhecimento e ser
Afirmamos que a sabedoria pertence ao próprio ser das coisas, e que uma
coisa é sentida e conhecida porque é a própria natureza cognoscente. Uma vez
que a sensação é assimilação e que todo conhecimento acontece pelo fato de
que a própria natureza cognoscente se torna o próprio conhecido, conhecer é
ser; portanto, qualquer ente, se é muitas coisas, conhece muitas coisas; se é
poucas, conhece poucas.
O conhecimento sensitivo, imaginativo, intelectivo e memorativo consiste
no fato de que o cognoscente é ou se torna o ser do conhecido. Portanto, real e
fundamentalmente conhecer é ser; formalmente, porém, se distinguem, porque o
conhecer é o ser enquanto julgado. 5. Aquisição e perda no
conhecer
O valor do saber pode ser apreciado pelo fato de que quanto mais sabemos,
tanto mais somos; portanto, quem é tudo, sabe tudo, e quem é pouco, sabe
pouco.
Sabemos apenas poucas coisas, e parcialmente e imperfeitamente. [Todavia]
como tornar-se muitas outras coisas por meio da passividade da experiência é o
mesmo que dilatar o próprio ser, isto é, tornar-se de um muitos, o saber é
coisa divina, mesmo na passividade da experiência.
Conhecer e amar a si mesmo é em todo ente um ato ou operação
primordial incessante. Portanto, quando o objeto move a mente movendo o espírito
corpóreo, ao qual a mente está unida através da primariedade, a operação da
mente é modificada; e, enquanto antes sentia e amava a si mesma essencialmente,
agora sente e ama a si acidentalmente. Com efeito, a mente é mudada
acidentalmente pelos objetos, os quais não tolhem a operação, mas a modificam
com aquela passividade; daqui provém que a faculdade cognoscitiva julga o
objeto de modo a conhecê-lo, conhecendo não o objeto em si, mas conhecendo a
si própria mudada, por meio da faculdade imaginativa, no objeto. A mente,
portanto, sempre conhece a si mesma, mas nem sempre conhece a si mesma como
mudada. Em Deus, portanto, que não é passivo diante de nenhum objeto exterior
nem ocasionalmente nem causalmente, não se verifica uma pausa no conhecer, no
ver-se e no amar-se; ele está sempre em ato no conhecimento de si mesmo e, por
meio de si, do outro. Nós, porém, embora conheçamos sempre a nós mesmos
atualmente, somos mudados pelos objetos; portanto, parecemos sofrer pausas no
conhecimento de nós mesmos e somos raptados na realidade diferente de nós.
[Eis que então] todos os cognoscentes são alienados do próprio ser,
como se terminassem na loucura e na morte; nós estamos no reino da morte.
Estamos de fato em uma terra estrangeira, alienados de nós mesmos; anelamos uma
pátria e nossa sede é junto de Deus. T.
Campanella, Textos. |