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©Roberto Girola (Janeiro2002) (O presente texto foi extraído do livro "A psicanálise cura?")No presente estudo nos propomos uma revisão de alguns textos em busca das diferentes nuances que o conceito de cura (Heilung/Kur) adquire em Freud. Trata-se de um simples levantamento bibliográfico, portanto restringirei ao mínimo os comentários. O objetivo é acompanhar o pensamento freudiano em sua evolução. Os textos que contêm a palavra cura ou a palavra terapia são mais de 100. Aqui abordaremos apenas alguns, nos quais o tema foi tratado de forma bastante específica. Para tornar mais didática a apresentação dos textos, os classificarei por período.
Textos de 1890 a 1899Num
primeiro momento, Freud parece bastante prudente sobre a possibilidade de
cura. “A histeria, como as neuroses, tem causas mais profundas; e são essas causas mais profundas que estabelecem limites, muitas vezes bem apreciáveis, ao sucesso de nosso tratamento.” (FREUD, 1893, p. 47). Mais
tarde, contudo, se demonstra mais confiante sobre as possibilidades terapêuticas
do seu método. “Enquanto, naquela época [cf. texto anterior], declaramos modestamente que só podíamos encarregar-nos de eliminar os sintomas da histeria, mas não de curar a histeria em si, essa distinção parece-me hoje sem substância, de modo que há uma perspectiva de cura genuína da histeria e das obsessões.” (FREUD, 1898, p. 267) No entanto, a palavra cura, do ponto de vista da psicanálise, é usada num sentido peculiar, que, em Psicoterapia da histeria, Freud tenta esclarecer. Depois de mostrar que o material psíquico patogênico se apresenta na análise de três formas diferentes, numa ordem cronológica inversa, organizado em camadas concêntricas, que têm como núcleo[2] a organização patogênica e, finalmente, sob forma de ramificações de representações convergentes, Freud chega à conclusão que a “organização patogênica não se comporta como um corpo estranho, porém muito mais como um infiltrado” (FREUD, 1893-1895 , p. 303). Por causa disso, “o tratamento não consiste em extirpar algo — a psicoterapia até agora não é capaz de fazer isso — mas em fazer com que a resistência se dissolva e assim permitir que a circulação prossiga para uma região que até então estava isolada” (FREUD, 1893-1895 , p. 303). Retomando
um comentário feito a um paciente, Freud esclarece ainda mais o sentido
limitado, porém importante, que assume a palavra cura no contexto da psicanálise. “Sem dúvida o destino[3] acharia mais fácil do que eu aliviá-lo de sua doença. Mas você poderá convencer-se de que haverá muito a ganhar se conseguirmos transformar seu sofrimento histérico numa infelicidade comum. Com uma vida mental restituída à saúde, você estará mais bem armado contra essa infelicidade.” (FREUD, 1893-1895 , p. 316) O
mesmo texto evidencia também as dificuldades que caracterizam o processo
terapêutico e nos dá uma idéia da técnica adotada na análise dos
pacientes histéricos. Em primeiro lugar Freud esclarece que o “processo é
laborioso e exige muito tempo do médico” (FREUD, 1893-1895, p. 280). Além
disso pressupõe por parte do analista “um interesse pessoal pelos
pacientes”, ou seja, sentimentos de solidariedade e de empatia, sem os quais
qualquer tentativa de cura torna-se inútil.
Quanto ao paciente, são necessários um certo nível de inteligência,[4]
e sobretudo confiança em relação ao analista.
Neste sentido Freud aponta para três grandes obstáculos que podem
surgir na relação terapêutica entre analista e paciente: desavenças; medo,
por parte do paciente, de ficar dependente do analista; casos em que o
paciente transfere alguma representação aflitiva para o analista (falsa ligação)
(Cf. FREUD, 1893-1895, p. 313-315 e p. 99 nota). Neste período, sob a influência das teorias de Charcaud, Freud adere à hipnose. Embora seja uma adesão temporária, reflete um passo importante, pois são justamente os processos hipnóticos que ajudam Freud a se questionar sobre o funcionamento psíquico e os conflitos que o afligem, fazendo com que se afaste do campo restrito da medicina. Em particular a atenção de Freud se concentra sobre os fenômenos histéricos. Já em 1888, ele constata que os sintomas da histeria sugerem um mecanismo psíquico (FREUD, 1888, p. 117). Poucos anos depois, em Um caso de cura pelo hipnotismo começa a esboçar uma série de conceitos tentando descrever esse mecanismo (FREUD, 1892-1893). Nesse texto, observa que as expectativas e as intenções do ser humano parecem esbarrar numa contravontade, demonstrando uma dissociação da consciência, gerada por idéias antitéticas aflitivas de caráter inconsciente (FREUD, 1892-1893, p. 164). Tais idéias “realmente existem (...) e levam uma vida insuspeitada, numa espécie de reino das sombras, até emergirem como maus espíritos e assumirem o controle do corpo, que, geralmente, está sob as ordens da predominante consciência do ego” (FREUD, 1892-1893, p. 169). Sempre
em Psicoterapia da histeria, Freud faz uma avaliação do poder terapêutico
do método catártico por ele desenvolvido com Breuer.
Em primeiro lugar, ele esclarece o caráter complexo das neuroses, cuja
etiologia nem sempre remonta a uma única causa e chega a formular uma hipótese
que representa um dos pontos mais polêmicos de sua teoria: “na medida em
que se possa falar em causas determinantes que levam à aquisição da
neurose, sua etiologia deve ser buscada em fatores sexuais” (FREUD,
1893-1895, p. 273). É uma conclusão para a qual apontam os casos analisados
precedentemente por Freud, mas sabemos que Breuer preferirá se distanciar
dessas conclusões. Freud
também observa que raramente podemos falar de formas puras de histeria, freqüentemente
a histeria se combina com a neurose de angústia e esta com fenômenos
obsessivos. Por esta razão, “as neuroses que comumente ocorrem devem ser
classificadas, em sua maior parte, de mistas”. (FREUD, 1893-1895, p.
274). A complexidade etiológica das neuroses faz com que Freud questione a
eficácia curativa do método catártico.
O método, de fato, “não consegue afetar as causas subjacentes da
histeria: assim, não consegue impedir que novos sintomas tomem o lugar
daqueles que foram eliminados” (FREUD, 1893-1895, p. 277). O método catártico
portanto é eficaz do ponto de vista terapêutico, desde que assumamos
tratar-se de um método sintomático e não causal. Ao
observar as dificuldades de aplicar a hipnose, pois nem todos os pacientes são
hipnotizáveis e dispostos a ser hipnotizados,[5]
Freud descreve o método terapêutico por ele introduzido com sucesso para
substituir a hipnose, quando esta se mostra inviável. Trata-se de uma técnica
que lembra a associação livre, hoje amplamente usada no contexto analítico.
Depois de descrever a primeira conversa em que perguntava ao paciente se
lembrava de algo relacionado ao sintoma, Freud frisa a insistência com
a qual “lhes assegurava que eles efetivamente sabiam” (FREUD, 1893-1895,
p. 283). Geralmente, a convicção do terapeuta na possibilidade do paciente
ter acesso a essas lembranças fazia com que alguma lembrança começasse a
aparecer. Freud então pedia aos pacientes “que se deitassem e fechassem
deliberadamente os olhos a fim de se ‘concentrarem’” (FREUD, 1893-1895,
p. 283). O resultado era o surgimento de “novas lembranças, que recuavam
ainda mais no passado” (FREUD, 1893-1895, p. 283) e que provavelmente se
relacionavam com o sintoma. Nesta
fase, contudo, ele ainda emprega um recurso sugestivo que sucessivamente
desaparecerá. Trata-se de uma
leve pressão com as mãos na cabeça do paciente, para induzi-lo a lembrar da
representação patogênica aparentemente esquecida. Freud considera necessário
este recurso para vencer a resistência do paciente a trazer para a consciência
as lembranças patogênicas. Ao se deparar com o fenômeno da resistência,
Freud chega à conclusão que a mesma força que causa a resistência do
paciente à análise é a que causou na época a defesa necessária para
forçar para fora da consciência e da memória uma representação
aflitiva. “O não saber do paciente histérico seria, de fato, um ‘não
querer saber’” (FREUD, 1893-1895, p. 284). Acho interessante reportar um parágrafo que descreve
detalhadamente o processo analítico usado nesta fase e seu objetivo terapêutico. “Em toda análise mais ou menos complicada, o trabalho é efetuado pelo uso repetido, na verdade contínuo, desse método de pressão sobre a testa. Algumas vezes, partindo de onde a retrospectiva de vigília do paciente se interrompe, esse procedimento aponta o outro caminho a seguir através das lembranças das quais o paciente permaneceu consciente; por vezes, chama a atenção para ligações que foram esquecidas, noutras, evoca e organiza lembranças que foram retiradas das associações por muitos anos, mas que ainda podem sr reconhecidas como lembranças; e, às vezes, por fim, como auge de sua realização em termos de pensamento reprodutivo, ele faz com que emerjam [sic] pensamentos que o paciente jamais reconhece como seus, dos quais nunca se recorda, embora admita que o contexto os exige inexoravelmente e se convença de que são precisamente essas idéias que levam à conclusão da análise e à eliminação de seus sintomas.” (FREUD, 1893-1895, p. 286-287)
Textos de 1900 a 1922No texto de 1905, Tratamento psíquico (ou anímico), Freud esclarece em que consiste o processo terapêutico da psicanálise, frisando que não se trata de um tratamento da alma e sim de um tratamento que parte da alma. (FREUD, 1893-1895, p. 280). “’Psyche’
é uma palavra grega e se concebe, na tradução alemã, como alma. Tratamento
psíquico significa, portanto, tratamento anímico. Assim, poder-se-ia pensar
que o significado subjacente é: tratamento dos fenômenos patológicos da
vida anímica. Mas não é este o sentido dessas palavras. ‘Tratamento psíquico’’
quer dizer, antes, tratamento que parte da alma, tratamento — seja de
perturbações anímicas ou físicas — por meios que atuam, em primeiro
lugar e de maneira direta, sobre o que é anímico no ser humano. Um desses
meios e sobretudo a palavra, e as palavras são também a ferramenta essencial
do tratamento anímico.” (FREUD, 1905b, p.271) Após frisar o valor curativo da palavra, no mesmo texto, Freud acrescenta que o tratamento psíquico reflete “o esforço de provocar no doente os estados e condições anímicos mais propícios para a cura” (FREUD, 1905b, p. 279). Mas quais seriam tais estados e condições propícios à cura? Como vimos, Freud está à procura de um método terapêutico capaz de curar não apenas os sintomas, mas também as causas das neuroses. Isto leva gradativamente ao abandono da sugestão hipnótica, cuja eficácia considera insuficiente, como ele mesmo explica. “Se abandonei tão cedo a técnica da sugestão, e com ela, a hipnose, foi porque não tinha esperança de tornar a sugestão tão forte e sólida quanto seria necessário para obter a cura permanente. Em todos os casos graves, vi a sugestão introduzida voltar a desmoronar, e então reaparecia a doença ou um substituto dela. Além disso, censuro essa técnica por ocultar de nós o entendimento do jogo de forças psíquico; ela não nos permite, por exemplo, identificar a resistência com que os doentes se aferram a sua doença, chegando em função disso a lutar contra sua própria recuperação; e é somente a resistência que nos possibilita compreender seu comportamento na vida.” (FREUD, 1904, p. 247) Através
do poder curativo da palavra, o método, desenvolvido por Freud e por
Breuer, permite uma rememoração que leva à análise dos mecanismos psíquicos
que atuam no inconsciente. Tais
mecanismos são descritos por Freud na celebre obra A interpretação dos
sonhos (FREUD, 1900), onde ele mapeia o funcionamento psíquico e os
sistemas que o compõem. A assim chamada primeira tópica, como vimos,
descreve o percurso do desejo da percepção consciente (Pct) à formação
dos traços mnêmicos no inconsciente (Ics), que tentam abrir caminho para a
consciência (Ics), através da organização defensiva que caracteriza os
processos secundários no pré-consciente (Pcs). No texto a seguir, Freud
retoma a experiência desenvolvida com Breuer, mostrando como a cura do
sintoma ocorre ao trazer à consciência aquilo que estava inconsciente. “O processo que o autor faz Zoe adotar na cura do delírio do seu companheiro de infância mostra, mais do que uma grande semelhança, uma total conformidade em sua essência com o método terapêutico que o Dr. Josef Breuer e eu introduzimos na medicina em 1895, e a cujo aperfeiçoamento desde então me tenho dedicado. Esse método de tratamento, a que inicialmente Breuer chamou de ‘catártico’, mas que prefiro denominar de ‘psicanalítico’, consiste, aplicado a pacientes que sofrem de perturbações semelhantes ao delírio de Hanold, em lhes fazer chegar à consciência, até certo ponto forçadamente, o inconsciente cuja repressão provocou a enfermidade — exatamente como Gradiva fez com as lembranças reprimidas da amizade de infância que a unira a Hanold.” (FREUD, 1907, p. 81) Referindo-se à técnica terapêutica desenvolvida com Breuer, Freud a descreve usando as palavras de uma paciente (Anna O.). “A própria paciente, que nesse período da moléstia só falava e entendia inglês, deu a esse novo gênero de tratamento o nome de `talking cure’ (cura de conversação) qualificando-o também, por gracejo, de `chimney sweeping’ (limpeza da chaminé). Verificou-se logo, como por acaso, que, limpando-se a mente por esse modo, era possível conseguir alguma coisa mais que o afastamento passageiro das repetidas perturbações psíquicas. Pode-se também fazer desaparecer sintomas quando, na hipnose, a doente recordava [o grifo é meu], com exteriorização afetiva, a ocasião e o motivo do aparecimento desses sintomas pela primeira vez.” (FREUD, 1910, p. 30)[6] O método terapêutico de Freud, nesta fase de desenvolvimento de sua clínica, consiste portanto em identificar a causa do sintoma (que não é necessariamente a causa mais profunda da neurose). Uma vez verbalizada a causa, o sintoma, automaticamente tende a desaparecer. Vale contudo a pena frisar que a re-memorização somente é terapêutica se carregada de exteriorização afetiva; a mobilização das emoções é descrita aqui como a chave terapêutica que garante a cura. “Além disso, o sintoma (...) atingia a máxima intensidade quando durante o tratamento ia-se chegando à sua causa, para desaparecer completamente quando esta se aclarava inteiramente. Por outro lado, pode-se verificar que era inútil recordar a cena diante do médico se, por qualquer razão, isto se dava sem exteriorização apaixonada. Era pois a sorte dessas emoções, que podemos imaginar como grandezas variáveis o que regulava tanto a doença como a cura. Tinha-se de admitir que a doença se instalava porque a emoção desenvolvida nas situações patogênicas não podia ter exteriorização normal; e que a essência da moléstia consistia na atual utilização anormal das emoções `enlatadas.” (FREUD, 1910, p. 34)[7] Nas Conferências Introdutórias à psicanálise (XXVII e XXVIII), Freud retoma o tema da cura e traz alguns esclarecimentos interessantes. Na Conferência XXVIII, são abordados alguns obstáculos ao processo terapêutico, que frisam a dificuldade em penetrar os mecanismos psíquicos do desejo. Percebemos que aqui a preocupação da cura já não se focaliza no sintoma e envereda definitivamente para o que poderíamos definir como a cura do desejo, que está na raiz da neurose. “As
forças contra as quais estivemos lutando durante nosso trabalho de terapia são,
por um lado, a aversão do ego a determinadas inclinações da libido — uma
aversão expressa na tendência à repressão — e, por outro lado, a
tenacidade ou adesividade da libido, à qual desagrada abandonar objetos que
ela uma vez catexizou” (FREUD, 1916-1917, p. 455). No decorrer de sua experiência clínica Freud descobre outro elemento terapêutico fundamental: a transferência. Trata-se de uma relação peculiar que se estabelece entre o paciente e o analista. A Conferência XXVII descreve esse processo: “A transferência pode aparecer como uma apaixonada exigência de amor, ou sob formas mais moderadas; em lugar de um desejo de ser amada, uma jovem [a paciente] pode deixar emergir um desejo, em relação a um homem idoso [o analista], de ser recebida como filha predileta; o desejo libidinal pode estar atenuado num propósito de amizade inseparável, mas idealmente não-sensual” (FREUD, 1916-1917, p. 443). Nos pacientes masculinos existe “a mesma vinculação ao médico, a mesma supervalorização das qualidades deste, a mesma absorção dos seus interesses, o mesmo ciúme de qualquer pessoa mais chegada a ele na vida real” (FREUD, 1916-1917, p. 444). Neste caso, a transferência continua existindo, embora normalmente isto aconteça de forma mais sublimada. No mesmo texto, Freud explica que a transferência pode adquirir uma conotação contrária. Trata-se da transferência negativa, que se traduz em ódio pelo terapeuta. A evolução positiva do processo terapêutico dependerá em boa parte de como o analista lida com a transferência. “Superamos a transferência mostrando ao paciente que seus sentimentos não se originam da situação atual e não se aplicam à pessoa do médico, mas sim que eles estão repetindo algo que lhe aconteceu anteriormente. Desse modo, obrigamo-lo a transformar a repetição em lembrança. Por esse meio, a transferência que, amorosa ou hostil, parecia de qualquer modo constituir a maior ameaça ao tratamento, torna-se seu melhor instrumento, com cujo auxílio os mais secretos compartimentos da vida mental podem ser abertos.” (FREUD, 1916-1917, p. 444-445) Na Conferência XXVIII, o tema é retomado numa perspectiva mais metapsicológica. “(...) nosso trabalho terapêutico incide em duas fases. Na primeira, toda a libido é retirada dos sintomas e colocada na transferência, sendo aí concentrada; na segunda, trava-se a luta por esse novo objeto e a libido é liberada dele. A modificação decisiva para um resultado favorável é a eliminação da repressão nesse conflito reconstituído, de modo que a libido não possa ser retirada do ego, novamente, pela fuga para o inconsciente.” (FREUD, 1916-1917, p. 455). O mesmo processo terapêutico, baseado na transferência, é descrito na Conferência XXVII. Aqui, Freud mostra ainda um fundamental otimismo quanto à possibilidade de sucesso da terapia psicanalítica. “Todos
os sintomas de paciente abandonam seu significado original e assumem um novo
sentido que se refere à transferência; ou apenas tais sintomas persistem,
por serem capazes de sofrer essa transformação. Mas dominar essa neurose
nova, artificial, equivale a eliminar a doença inicialmente trazida ao
tratamento — equivale a realizar nossa tarefa terapêutica. Mas dominar essa
neurose nova, artificial [baseada na transferência], equivale a eliminar a
doença inicialmente trazida ao tratamento — equivale a realizar nossa
tarefa terapêutica.” (FREUD, 1916-1917, p. 445) Contudo, esse otimismo é logo matizado, pois o analista enfrenta resistências nesse trabalho. As mesmas defesas que o ego usou para efetuar o recalque operam no processo terapêutico, pondo obstáculos ao deslocamento da libido. Neste sentido, Freud observa que o eventual fracasso da terapia poderá ser determinado “pela falta de mobilidade da libido, que pode recusar-se a abandonar seus objetos, e pela rigidez do narcisismo, a qual não permitirá que a transferência para os objetos aumente além de determinados limites” (FREUD, 1916-1917, p. 456). Freud voltará, no artigo Análise terminável e interminável, a frisar a importância desse fator, ligado ao instinto de morte, identificando nele uma das principais causas do fracasso da análise. Vale a pena observar que é justamente a partir da importância da transferência no processo de cura psicanalítica que Freud considera impossível que o paciente psicótico seja curado, pois não acredita que ele tenha condições de estabelecer um vínculo transferencial suficientemente eficaz com o analista (Cf. FREUD, 1916-1917, p. 447-448). Desenvolvimentos sucessivos da psicanálise, mostrarão contudo que esta teoria é questionável. Na Conferência XXVIII, Freud menciona ainda dois aspectos fundamentais para o bom andamento do processo terapêutico, a interpretação e a sublimação. “Mediante o trabalho da interpretação, que transforma o que é inconsciente em consciente, o ego se amplia à custa desse inconsciente; por meio do conhecimento, ele se torna conciliador para com a libido e disposto a conceder-lhe alguma satisfação, e sua recusa às exigências da libido diminui mediante a possibilidade de derivar uma parte da mesma através da sublimação.” (FREUD, 1916-1917, p. 455-456). No mesmo texto, Freud acena ao fato de considerar incuráveis, pelo método psicanalítico, a paranóia e a demência precoce em suas formas mais agudas. Menciona também a importância dos fatores externos que podem prejudicar o tratamento. “Nos tratamentos psicanalíticos, a intervenção dos parentes é perigo real e um perigo que não se sabe como enfrentar. (...) Nenhum tipo de explicação produz qualquer impressão nos parentes do paciente; eles não podem ser induzidos a manter-se à distância de todo o assunto, e não se pode fazer causa comum com eles, devido ao risco de perder a confiança do paciente, o qual — com toda razão, naturalmente — espera que a pessoa em quem depositou toda a sua confiança, fique do seu lado. (...) Nesse caso, não podemos acusar-nos, se nosso esforços não obtêm êxito e o tratamento é interrompido prematuramente, (...).” (FREUD, 1916-1917, p. 459) Finalmente, vale a pena citar uma ressalva feita na Conferência XXVII, que diz respeito ao método terapêutico e que ajuda a entender em que sentido a análise opera. “(...) posso assegurar-lhes que estão mal informados se supõem que o conselho e a orientação nos assuntos da vida façam parte integral da influência analítica. Pelo contrário, na medida do possível (...) tudo o que procuramos levar a efeito é, de preferência, que o paciente venha a tomar as decisões por si mesmo. Também com vistas a esse propósito, exigimos do paciente que adie para o término de seu tratamento quaisquer decisões relativas à escola de uma profissão, encargos de negócios, casamento ou divórcio, e que só as ponha em prática quando o tratamento estiver terminado.” (FREUD, 1916-1917, p. 435) Estamos portanto longe de uma dependência total do analista por parte do paciente como parecem sugerir algumas visões estereotipadas da psicanálise e, talvez, a prática desavisada de alguns analistas. A cura psicanalítica visa em última análise, que a pessoa seja capaz de tomar suas decisões por conta própria. Outro aspecto frisado por Freud é que o objetivo terapêutico da psicanálise não tem necessariamente um compromisso com a virtude em sentido moral. Trata-se de uma questão polêmica, pois, ao tomar essa posição, Freud exclui que a cura passe necessariamente por uma adaptação da pessoa aos padrões morais e culturais vigentes. O texto freudiano é bastante claro nesse sentido. A função da análise é habituar o paciente a “emitir pareceres isentos de preconceitos, tanto sobre assuntos sexuais como sobre outros assuntos; e se, havendo-se tornado independentes após completado o tratamento, os pacientes, mediante seu próprio julgamento, decidem por alguma posição intermediária entre viver uma vida livre e uma vida de absoluto ascetismo, sentimos nossa consciência tranqüila, seja qual for sua escolha” (FREUD, 1916-1917, p. 436). Se a solução terapêutica da psicanálise não tem um compromisso com nenhum tipo de moralidade definida, podemos dizer que a psicanálise é amoral? Freud aponta para um tipo de moralidade intrínseca ao ser humano, que é baseada na honestidade de suas escolhas, numa perspectiva que lembra os conceitos da ética kantiana, excluindo portanto a dependência absoluta de uma norma ética extrínseca. “Dizemos
a nós próprios que todo aquele que conseguiu educar-se de modo a se conduzir
de acordo com a verdade referente a si mesmo, está permanentemente protegido
contra o perigo da imoralidade, conquanto seus padrões de moralidade possam
diferir, em determinados aspectos, daqueles vigentes na sociedade.” (FREUD,
1916-1917, p. 436) A afirmação de Freud abre uma série de questões que, embora importantes, fogem ao objetivo do nosso trabalho. O que aqui importa é observar que a cura proposta pela psicanálise não tem necessariamente como objetivo restabelecer a “normalidade”, no sentido de adequação ao status quo dominante em termos culturais e éticos. Freud
se pergunta ainda se a análise pode ser chamada de terapia causal, no
sentido que seu objetivo não seria remover os sintomas e sim buscar as causas
que os determinam. Percebe-se que, aos poucos, Freud está se abrindo para uma
nova perspectiva, abandonando a visão médica voltada para a remoção do
sintoma que dominava os primeiros anos de sua clínica. O próprio Freud
admite que isso pode nos levar a uma simplificação indevida, como se a
analise conseguisse curar as causas dos sintomas. Ele esclarece: “Com
nossa terapia psíquica, atacamos em conjunto diferentes pontos — não
exatamente os pontos que sabemos serem as raízes dos fenômenos, mas, ainda
assim, bem distantes dos sintomas; os pontos que se nos tornaram acessíveis”
(FREUD, 1916-1917, p. 438).
O
caminho não é apenas tornar consciente o que é inconsciente, informando
o paciente sobre seus mecanismos inconscientes. O poder terapêutico de tal
informação é quase nulo. O avanço do processo terapêutico é aqui
descrito de forma resumida, mostrando como o analista deve lidar com o
material inconsciente do paciente, num manejo cuidadoso da interpretação
e lidando de forma adequada com a resistência. ”Devemos de preferência, situar esse material inconsciente topograficamente, devemos procurar, em sua memória [do paciente], o lugar em que se tornou inconsciente devido a uma repressão. A repressão deve ser eliminada — e a seguir pode efetuar-se desimpedidamente a substituição do material consciente pelo inconsciente. (...) A essa altura, nossa tarefa entra numa segunda fase. Primeiro, a busca da repressão e, depois, a remoção da resistência que mantém a repressão. Como removemos a resistência? Da mesma forma: descobrindo-a e mostrando-a ao paciente. Na realidade, também a resistência deriva de uma repressão — da mesma repressão que nos esforçamos por solucionar, ou de uma repressão que se realizou anteriormente. Foi provocada pela anticatexia, que surgiu a fim de reprimir o impulso censurável. Assim, fazemos o mesmo que tentamos fazer inicialmente: interpretar, descobrir, comunicar; mas, então, estamos fazendo-o no lugar certo. A anticatexia ou a resistência não fazem parte do inconsciente, e sim do ego, que é nosso colaborador, sendo-o, ainda que não consciente.” (FREUD, 1916-1917, p. 438) Gostaria
de concluir a análise desse período, ressaltando mais uma vez como Freud, na
Conferência XXVIII, apesar das dificuldades que levanta a respeito da
análise e de suas restrições, ainda acredita em sua eficácia terapêutica
permanente e em seu valor profilático. Dois textos são bastante claros a
esse respeito; o próprio Strachey os menciona em sua introdução ao texto Análise terminável
e interminável (FREUD, 1937,
p. 227). “Uma pessoa que se tornou normal e livre da operação dos impulsos instintuais reprimidos em sua relação com o médico permanecerá assim em sua própria vida, depois de o médico mais uma vez haver-se retirado dela.” (FREUD, 1916-1917, p. 445) No segundo texto, referindo-se aos efeitos do tratamento psicanalítico, Freud observa: “Um tratamento analítico exige, tanto do médico, como do paciente, a realização de um trabalho sério, que é empregado para levantar resistências internas. Mediante a superação dessas resistências, a vida mental do paciente é permanentemente modificada, elevada a um nível mais alto de desenvolvimento, ficando protegida contra novas possibilidades de cair doente. Esse trabalho de superar as resistências constitui a função essencial do tratamento analítico; o paciente tem de realizá-lo e o medico lhe possibilita fazê-lo com a ajuda da sugestão, operando em um sentido educativo” (FREUD, 1916-1917, p. 452) Textos de 1923 a 1938Mas,. afinal, Freud continua acreditando no poder terapêutico da análise? Depois de anos de prática clínica, baseado não apenas em suas experiência, mas também naquelas dos seguidores do seu método, ele declara nunca ter sido um terapeuta muito entusiasta e comenta: “A psicanálise é realmente um método terapêutico como os demais. Tem seus triunfos e suas derrotas, suas dificuldades, suas limitações, suas indicações” (FREUD, 1933, p. 150). Mas logo acrescenta: “Comparada com outros procedimentos psicoterapêuticos, a psicanálise é, fora de dúvida, o mais eficiente” (FREUD, 1933, p. 150-151), inclusive por ser o método mais laborioso e demorado. Mais uma vez, Freud, ainda na Conferência XXXIV, aponta numerosas limitações ao trabalho, devidas a diferentes fatores, entre eles os fatores constitucionais. “A expectativa de que todo fenômeno neurótico possa ser curado, pode ser, conforme suspeito, derivada da crença do leigo de que as neuroses são algo muito desnecessário, que não têm qualquer razão de existir. E, no entanto, elas são, com efeito, doenças graves, fixadas na constituição, que raramente se limitam apenas a alguns ataques, mas persistem geralmente por longos períodos, ou por toda a vida.” (FREUD, 1933, p. 151) A seguir Freud menciona mais uma vez a “radical inacessibilidade das psicoses ao tratamento analítico” (FREUD, 1933, p. 151),[8] além de outros fatores que impedem a eficácia terapêutica da psicanálise, em particular aqueles relacionados à rigidez dos mecanismos psíquicos e ao narcisismo exasperado. O problema é que, ao entrar no processo analítico, o “paciente traz consigo aspectos doentios indefinidos e gerais que não comportam um diagnóstico conclusivo” e somente “depois desse período de prova, pode acontecer que o caso se revele inviável” (FREUD, 1933, p. 153). Quanto ao fato do tratamento psicanalítico ser demorado, Freud lembra que as modificações psíquicas ocorrem lentamente, levando às vezes anos. Isto faz também com que uma análise possa ser retomada e que, em certos casos, dure uma vida inteira (Cf. FREUD, 1933, p. 153). A conclusão da Conferência XXXIV é interessante. “(...) a psicanálise começou como um método de tratamento; mas não quis recomendá-lo (...) como método de tratamento e sim por causa das verdades que ela contém, por causa das informações que nos dá a respeito daquilo que mais interessa aos seres humanos — sua própria natureza — e por causa das conexões que ela desvenda entre as mais diversas atividades.” (FREUD, 1933, p. 154) Como vimos, o desejo de cura percorre os escritos de Freud, às vezes abertamente declarado, ás vezes não. Contudo, depois de muitos anos de experiência clínica, esse desejo parece de certa forma frustrado. Freud se volta então, talvez de forma compensatória, para a riqueza e a importância dos achados que a psicanálise descobriu, escavando nas profundezas da alma humana, num trabalho muito parecido àquele da arqueologia, que, aliás, era uma de suas paixões. Para concluir, um texto resume bastante bem o processo terapêutico da análise e sua função de re-equilibrar os conflitos intrapsíquicos. Freud lembra que a função do ego é mediar as exigências postas pelas três instâncias psíquicas mapeadas na segunda tópica: o id, o superego e o principio de realidade, preservando, contudo, sua autonomia e sua organização interna. Portanto, o estado patológico tem sua origem em um enfraquecimento do ego, que rende impossível a realização de sua tarefa. “Nosso plano de cura baseia-se nessas descobertas. O ego acha-se enfraquecido pelo conflito interno e temos de ir em seu auxílio. (...) O médico analista e o ego enfraquecido do paciente, baseando-se no mundo externo real, têm de reunir-se num partido contra os inimigos, as exigências instintivas do id e as exigências conscienciosas do superego. Fazemos um pacto um com o outro. O ego enfermo nos promete a mais completa sinceridade — isto é, promete colocar à nossa disposição todo o material que a sua autopercepção lhe fornece; garantimos ao paciente a mais estrita discrição e colocamos a seu serviço a nossa experiência em interpretar material influenciado pelo inconsciente” (FREUD, 1940, p. 188). Em poucas palavras, é nisso que se resume o
processo analítico de cura, mediado pela presença do analista: fazer com que
o paciente entre em contato emocional com seus conteúdos pulsionais
inconscientes e com as cobranças, também inconscientes, do superego e que
aprenda a lidar com eles da melhor forma possível.
Para usar as próprias palavras de Freud o resultado do processo
psicanalítico è “fortalecer o ego, ampliar seu campo de percepção e
aumentar sua organização, de maneira a que possa apropriar-se de novas
partes do id. Onde era o id, ficará o ego”
(FREUD, 1933, p. 80).
[1] É o que o próprio Freud afirma ao referir-se à neurose: “A morfologia das neuroses pode ser traduzida, com pouca dificuldade, em sua etiologia, e o conhecimento desta última leva, naturalmente, a novas indicações quanto aos métodos de cura” (FREUD, , p. ).
[2] Na realidade Freud
acredita que não haja apenas um único sintoma e nem uma única idéia
patogênica e sim “sucessões de traumas parciais e concatenações de
cadeias patogênicas de idéias” (FREUD, 1893-1895 , p. 300)
[3] Sobre o poder curador do destino Freud explica: “O destino muitas vezes cura as doenças através das grandes emoções de alegria, da satisfação das necessidades e da realização dos desejos, com as quais o médico, amiúde impotente fora de sua arte, não pode rivalizar” (FREUD, 1905b, p. ).
[4] “O processo não é de
modo algum aplicável abaixo de um certo nível de inteligência, sendo
extremamente dificultado por qualquer vestígio de debilidade mental” (FREUD,
1893-1895, p. 280).
[5] Por outro lado, ao
descrever o caso da Srta. Lucy, Freud já admitira não ser um hipnotizador
tão experiente como Bernheim (FREUD,
1893-1895, p.135 e também p.297).
[6] Cf. também o caso clínico
da Srta. Anna O. (FREUD,
1893-1895, p. 65).
[7]Cf. também um texto
anterior: no qual Freud afirma que “o paciente só se libera do sintoma
histérico ao reproduzir as impressões patogênicas que o causaram e ao
verbalizá-las com uma expressão de afeto” (FREUD,
1893-1895, p. 296).
[8]
Como vimos, a mesma tese é defendida também na Conferência XXVII.
(FREUD, 1916-1917).
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