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"Rainha do Céu, quer [te chames] Ceres, a soberba mãe dos frutos do campo, quer sejas Vênus, ou a irmã de Febo, ou Prosérpina, que causa horror com seu ulular noturno... Tu, que com tua suave luz feminina iluminas todas as cidades."

Hoje em dia a tão sonhada individualidade chegou para ficar. Bem sabemos que este fato deve-se a um processo histórico que foi sendo instaurado nas sociedades modernas, por meio de lutas, ideologias, legitimações, coerção política, etc.

Mas será que nos perguntamos, com honestidade, se realmente faz sentido termos um estilo de vida nestes moldes, calcado numa individualidade extremada, onde o outro existe para nos servir? Espiamos pelo buraco da fechadura a vida alheia. Que o digam BBB e Casa dos Artistas e realizamos todas nossas fantasias reprimidas!

Para falar em individualidade, começo pela palavra estilo que deriva do latim, estilete, lamina fina, onde se entalhavam caracteres em peças de cera e/ou qualquer material sólido talhável e que, hoje, passou a abranger um modo de exprimir-se falando ou escrevendo; enfim, um jeito de ser. Esta idéia nos sugere, vulgarmente, que inscrevemos no mundo nosso modus operandi, nossos "eu" como sendo algo da ordem do sagrado.

Passamos a acreditar que o "eu" , fonte de vaidade, deva ser o motor que nos impulsiona para o mundo e que o faz girar. Buscamos unificar a idéia (conhecimento) e o mundo à nossa raiz existencial. Somos ambiciosos, queremos tudo do nosso jeito, gostamos de despertar a cobiça nas ninfas e nos narcisos da vida, seja pelo viés estético, ou pelo prisma cultural-econômico.

O Mito de Narciso não ficou parado nos autos da Era Grega. Narciso, por sinal, preferia viver só, pois não havia encontrado ninguém que julgasse merecedora do seu amor. E foi justamente esse desprezo que devotava às jovens a sua perdição. Qualquer semelhança na forma como os laços vão sendo consolidados nos  dias de hoje é mera semelhança, ou se preferirem um termo tão em voga, é mera ficção. 

Talvez, a história de um rei de Delhi venha a calhar naquilo que se pretende elucidar. Um acontecimento ilustrativo foi-nos legado pela Índia do século XIV. Apesar de sua coloração exótica, tem um ar moderno e extremamente interessante.

"O rei mais ambicioso de seu tempo, Muhammad Tughlak, sultão de Delhi, encontrou, reiteradas vezes, cartas que eram lançadas à noite por sobre os muros do átrio de seu palácio. Não se sabe ao certo o conteúdo dessas cartas, porém se diz que continham ofensas e xingamentos. O sultão decidiu, então, reduzir Delhi, na época, uma das maiores cidades do mundo, às ruínas. Uma vez que, como muçulmano rigoroso, levava muito em conta a justiça. Comprou as edificações e residências de todos os moradores, pagando o devido preço. Ordenou-lhes então que se mudassem para uma cidade nova e muito distante, Daulatabad, onde pretendia instalar sua capital. Os moradores se recusaram e, através de seu arauto, o sultão fez anunciar que decorridos três dias, nenhum ser humano poderia ser encontrado na cidade. A maior parte dos habitantes acatou a ordem, mas alguns esconderam-se em suas casas. O sultão mandou dar buscas na cidade à procura dos que nela tivessem permanecido. Seus escravos encontraram dois homens na rua, um aleijado e um cego. Foram levados à presença de Muhammad Tughlak; este ordenou que o aleijado fosse lançado por uma catapulta e que o cego fosse arrastado de Delhi até Daulatabad, uma viagem de quarenta dias. Ao longo do caminho, o corpo do cego despedaçou-se e a única coisa que dele chegou em Daulatabad foi uma perna. A partir desse momento, todos os que haviam ficado fugiram de Delhi, deixando móveis e posses para trás. A destruição foi tão completa que não restou um gato, um cachorro nos edifícios da cidade, nos palácios e nos arredores. Uma noite, o sultão subiu ao telhado do palácio e olhou para Delhi, onde não se via mais nem fogo, nem fumaça, nem luz alguma, e disse: 'Agora meu coração está tranqüilo e minha cólera apaziguada'.

É verdade que, mais tarde, escreveu aos moradores de outras cidades, ordenando-lhes que mudassem para Delhi, a fim de povoá-la de novo; também é verdade que só uns poucos vieram e que Delhi permaneceu quase vazia em sua imensa extensão. Mas o momento que importa aqui é o da unicidade. Quando o sultão contemplou a cidade vazia do telhado de seu palácio, todos os moradores, mesmo cães e gatos, distantes dela, a quarenta dias de viagem, não havendo mais nem fogo, nem fumaça, nem luz ele estava, de fato, totalmente só:: "Agora meu coração está tranqüilo". Deve-se notar que esta frase do sultão não é uma invenção ou um floreio literário posterior; ela foi transmitida, de forma fidedigna, pelo famoso viajante árabe Ibn Batuta, que viveu sete anos na corte do sultão e o conhecia perfeitamente bem. Seu coração está tranqüilo porque não há mais um único ser humano que possa voltar-se contra ele. Mas se sente, também, como se tivesse sobrevivido a todos os seres humanos; aqui a população de sua capital representa toda a humanidade.

Entendo também desta interessante história que levamos muito a sério o poder a nós concedido. Colocamos nossa individualidade acima de tudo, não como o Sultão que expulsou a população toda da cidade por um capricho vaidoso de refazê-la à perfeição, de se livrar da sujeira (que no fundo bem sabemos tratar-se do outro-diferente e da dificuldade de lidar com a alteridade), mas como uma busca incessante de iluminarmos nosso ego para que o mundo nos reconheça, um desejo de fincarmos, de crivarmos a todo custo nossa investidura simbólica no exterior para que todos saibam quem somos.

Aliás, é bom que se diga que, normalmente, usamos de estratégias que aparentemente se mostram simplistas, mas que são de alta complexidade na forma como nos relacionamos com os entes. Eu gosto da idéia de pensar sobre a história do homem e de como este constrói um espaço para conservar e afastar Deus. Em certos momentos da história o afastamento divino; traduz, na realidade, o interesse cada vez maior do homem pelas suas próprias descobertas religiosas, culturais e econômicas. Relata Eliade (1993) que, interessado pelas hierofanias da vida, em descobrir o sagrado da fecundidade terrestre e sentir-se solicitado por experiências religiosas mais concretas; (mais carnais, até mesmo orgiásticas), o homem primitivo afasta-se do Deus celeste e transcendente. Mas, como é sabido, em casos de aflição extrema, quando tudo foi tentado em vão, e sobretudo em casos de desastres provenientes do Céu, os homens voltam-se para o Ser Supremo e imploram-lhe piedade e clemência, evocando assim, sua presença.

Os hebreus voltavam-se para Jeová em conseqüência das catástrofes históricas e na iminência de um aniquilamento regido pela História. Os povos primitivos lembram-se de seus Seres supremos em casos de catástrofes naturais. "Mas o sentido do retorno do Deus celeste é o mesmo para uns e para outros: numa situação extremamente crítica, em que a própria existência da coletividade está em jogo, abandonam-se as divindades que asseguram a Vida em tempos normais, para reencontrar o Deus supremo, o Deus unificado". (Eliade, 1993a: p. 102-103). Esta lógica, a meu ver, parece representar uma estratégia de vida, construída pelo sujeito, que parece dar certo. É o sentido de vida! Mas será que é real? Será que estamos nos enganando ou enganando Deus, neste contexto? 

Acho que devemos nos perguntar de quando em quando, sobre a tal individualidade, no sentido daquilo de quem estamos fugindo, quem nos assusta a ponto de nos resguardarmos em nosso mais secreto íntimo, quem é este outro que nos afugenta e nos faz sair correndo ou quem é esse personagem da vida privada (BBB e Casa do Artistas) que me faz escravo da telinha? O que estou procurando? Talvez, pensarmos o sentido de toda a aventura, seja divina, seja humana, como o retorno à origem, pelo menos do ponto de vista etimológico do termo religião, do latim religare, "religar ao eterno", seja um começo.

Esta "volta" é uma volta a algum lugar, não necessariamente físico ou metafísico, mas um encontro com algo que se perdeu. Nesse sentido é que nossa individualidade deve ser valorizada e acolhida. Usá-la não como escape, mas como "instrumento" de superação.

O que eu sinto, nos dias de hoje, passa pela "quantidade" de portas que fechamos em nome da individualidade, por acreditar ser nosso caminho, O Caminho! Talvez com este nosso stillus de vida, estejamos sendo coerentes com as ideologias que compramos na feira mais próxima de casa, sem sombra de dúvidas! Somos espertos para tanto!

Em nome da individualidade e daquilo que salta à sua frente (sem pedir licença, é bom que se diga) o homem têm destruído a natureza e, depois, se segurado para "controlar" o fenômeno do El Niño. O mesmo homem têm retalhado seus semelhantes em nome de algo que agora me escapa a razão de ser, mas que parece não ter muito fundamento. Estratégias perecíveis!!! A quem queremos enganar, no final das contas?? Enfim, a vida anda sendo "matada" a todo custo e a pergunta que fica é: o que sucederá, o que será de nós?

Vivemos em nome e pelo prazer, sendo que quanto mais temos, mais queremos acumular; o limite aqui não é o outro. Entretanto, comumente, justifica-se o desejo como sendo próprio do ser humano; desejar coisas é querer coisas para satisfazer determinadas faltas que nos aparecem. O problema é quando atravessamos a tudo e a todos em nome de nossos desejos megalomaníacos!

E a ética? Mas para que ser ético, quando este não traz conforto material e nem enche a barriga. Ora, mas traz paz de espírito! Dane-se o espírito, pois não temos espírito para oferecer. A não ser nossa individualidade e o pó que dela sobrar e eu, realmente espero, que lá no céu tenha balança para se saber quem é quem!!

Enfim, realmente, para que cuidarmos do outro, para que convidarmos o outro para fazer parte de nossas vidas, se podemos (sonhar) ser os donos do mundo! Que venham as continuações de BBB e Casa dos Artista para que continuemos cada vez mais distantes de quem realmente somos!

Tiago