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Hugo de São Vítor |
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Um sábio, interrogado sobre melhores disposições para aprender,
respondeu: espírito humilde, empenho na pesquisa, vida tranqüila, pesquisa
silenciosa, pobreza, terra estrangeira; tais circunstâncias tornam mais rápida
a superação das dificuldades que se encontram durante os estudos.
Ele conhecia, penso, aquele dito: “O bom comportamento moral enriquece
a cultura”, e por tal motivo acrescentou advertências sobre o modo de viver
às normas que se referem ao estudo, para que o aluno pudesse chegar a conhecer
não só o método de seu trabalho, mas também o estilo de sua vida.
Não merece aplauso a ciência de uma pessoa desonesta: por isso é de máxima
importância que aquele que se dedica à pesquisa do saber não deixe de lado as
regras de uma vida correta.
A humildade é a condição preliminar de um comportamento disciplinado;
desta virtude existem muitos testemunhos: as seguintes se referem especialmente
aos estudantes. Antes de tudo eles não devem desvalorizar nenhuma ciência e
nenhum livro, em segundo lugar não devem envergonhar-se de aceitar um
ensinamento de qualquer pessoa e, finalmente, se conseguirem adquirir cultura, não
deverão jamais desprezar ninguém.
Muitos se enganam pois querem parecer sábios antes do tempo:
abandonam-se assim à vaidade do orgulho, começar a fingir ser aquilo que não
são e a envergonhar-se daquilo que são: tanto mais se afastam da sabedoria,
quanto mais clamam por ser considerados sábios e não de sê-lo. Conheci
diversas pessoas deste tipo, que, privadas ainda dos rudimentos da cultura,
julgavam apenas coisa digna deles ocupar-se de altíssimos problemas:
acreditavam poder tornar-se grandes, apenas lendo os livros ou ouvindo as
palavras de autores célebres e sábios.
“Nós – diziam – os vimos, ouvimos suas palestras, freqüentemente
costumavam conversar conosco, fomos conhecidos por homens excelentes e
famosos!”. Eu, porém, vos digo: “Quisesse o céu que ninguém no mundo me
conhecesse, mas que eu pudesse conhecer o que é humanamente cognoscível”.
Vós vos vangloriais de ter visto, mas não dizeis que entenderam Platão:
neste ponto creio que não haja para vós ocasião de prestígio vir ouvir
minhas aulas. Eu não sou Platão, nem tive a sorte de encontrá-lo. Bebestes na
fonte da filosofia, mas seria de grande bem se ainda tivésseis sede! Até um
rei, que tenha bebido em cálices de ouro, bebe também de um copo de barro, se
tiver sede. Por que deveríeis retirar-vos? Ouvistes Platão, escutai agora também
Crísipo. Tornou-se proverbial o dito: “Talvez aquilo que não saibas, Ofélio
o saiba”.
Não há nenhuma pessoa a quem tenha sido dado saber tudo e não há
nenhuma que não tenha recebido da natureza algum dom especial: os estudantes,
portanto, devem ouvir de bom grado a todos, devem se esforçar para ler tudo e não
devem desprezar nenhum escrito, nenhum autor, nenhum ensinamento: sem
preconceitos devem procurar aprender de qualquer pessoa aquilo que não sabem; não
devem pensar em tudo o que já conhecem, mas em tudo o que ainda ignoram.
Neste sentido se diz que Platão teve um tempo em que preferiu aprender
com humildade, em vez de ensinar com presunção. Por que deverias te
envergonhar de aprender e não tens pudor de ser ignorante? Isso é muito mais
desonroso. Por que aspiras a coisas tão grandes, quando és tão pequeno?
Considera realmente até onde podem chegar tuas forças.
Procede de modo melhor aquele que caminha com passo regular. Aqueles
quiseram dar um grande salto para frente e depois caíram em um despenhadeiro.
Portanto, não tenhas muita pressa: apenas assim alcançarás primeiro a
sabedoria.
Aprende de bom grado de todos aquilo que não sabes, porque a humildade
pode levar-te a participar da posse daquele bem especial que a natureza reservou
a cada ser humano particular. Será mais sábio de todos aquele que tiver
querido aprender algo de todos: quem recebe algo de todos, acaba por se tornar
mais rico do que todos.
Não subestimes portanto nenhuma forma de saber, porque toda ciência tem
valor. Caso tenhas tempo, não te eximas de ler os livros que se te apresentam:
mesmo que deles não tires particular utilidade, todavia deles não terás também
nenhum dano, porque, a meu parecer, não existe um escrito que não proponha
algo de interessante, quando for examinado no tempo e no lugar devido: poderia
conter alguma notícia especial, que o leitor precavido poderá apreciar com
maior prazer, quanto mais singular e preciosa for a informação.
Não é um bem todavia aquilo que impede o melhor: se não te é possível
ler todos os livros, lê aqueles que são mais úteis para ti. Mesmo que
pudesses ler tudo, não deverias jamais colocar em todas as leituras o mesmo
empenho: há alguns livros que é preciso ler, a fim de que não sejam ignorados
por nós, enquanto de outros devemos formar ao menos um julgamento, porque freqüentemente
arriscamo-nos a supervalorizar justamente aquilo que ignoramos, e julgamos
melhor quando temos algum conhecimento dos assuntos.
Agora podes perceber por que a humildade te é indispensável: não
deixes de lado nenhuma ciência, mas esforça-te para aprender de bom grado algo
de todos; depois, quando tiveres alcançado certo grau de instrução, não
desprezarás ninguém; convém que adotes este comportamento.
Nestes últimos tempos, justamente por não ter seguido estes princípios,
algumas pessoas se inflaram de orgulho: exaltavam com excessiva complacência
sua ciência e, crendo com absoluta certeza serem grandes, pensavam que os
outros (também todos aqueles que jamais haviam conhecido) não fossem comparáveis
a eles, nem teriam podido jamais se tornar iguais a eles. Desta atitude derivou
também o fato desconcertante que certos faladores presunçosos tacharam de
ingenuidade os antigos professores: pareciam convencidos de que a sabedoria
tivesse nascido com eles e que morreria com eles. Andavam dizendo que a
linguagem dos textos divinos é de tal forma simples, que não precisa da
explicação de nenhum professor para ser compreendida: pode bastar a cada
estudante a força de sua própria habilidade para explicar também as verdades
mais escondidas. Torciam o nariz e retorciam a boca, aludindo aos docentes de
teologia; não percebiam que ofendiam a Deus, enquanto andavam dizendo
elegantemente que suas palavras são “simples”, mas insinuando com malícia
que são “insípidas”. Não vos aconselho de modo algum a imitar tais indivíduos!
O estudante de valor deve ser humilde e dócil, absolutamente alheio às
ocupações mundanas e aos engodos das paixões, diligente e zeloso, disposto a
aprender de bom grado algo de todos; jamais deve ser presunçoso da própria
cultura, deve fugir como de comida envenenada dos escritos que contêm doutrinas
falsas, deve tratar a fundo uma questão antes de formular seu julgamento; deve
preocupar-se de ser, e não de parecer culto. Deverá preferir a palavra dos sábios
e tê-las sempre presentes na mente, como modelo a ser imitado: se por vezes não
conseguir perceber uma passagem obscura, talvez pela profundidade dos conceitos,
não prorromperá em invectivas, como se cresse que não há nada de válido, a
não ser aquilo que ele próprio está em grau de compreender.
Esta é a humildade que caracteriza os estudantes disciplinados. Hugo
de São Vítor, Didascalion. |