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Michel de Montaigne |
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Filosofar
é aprender a morrer
1.
Filosofar é preparar-se para a morte
Cícero diz que filosofar não é mais que preparar-se para a morte. É
por isso que o estudo e a contemplação transportam de alguma forma nossa alma
para fora de nós e a mantêm ocupada, separada do corpo. É uma espécie de
experiência e semelhança da morte; ou melhor, é fato que toda a sabedoria e
todas as considerações do mundo se resolvem por fim neste ponto: ensinar-nos a
não ter medo de morrer. Na verdade, ou a razão caçoa, ou deve apenas mirar
para a nossa satisfação, e todo seu esforço deve, em conclusão, tender a
fazer-nos viver bem e na alegria, como diz a Sagrada Escritura. 2.
Também na virtude o fim é o prazer
Todas as opiniões das pessoas são que o prazer é nosso escopo, embora
a ele se mire com meios diversos; de outro modo, alguém os expulsaria logo que
nascem, uma vez que quem ficaria ouvindo aquele que pusesse para si como fim
nosso sofrimento e nosso infortúnio?
As divergências das seitas filosóficas, neste caso, são apenas de
palavras. Há mais obstinação e teimosia do que convém a uma tão santa
profissão. Mas qualquer que seja o personagem que o homem represente, nele
sempre representa a si mesmo. Digam o que disserem, até na virtude o último
escopo de nossa aspiração é o prazer. Gosto de repetir no ouvido deles esta
palavra que tanto os perturba. E se ela significa um prazer supremo e uma enorme
satisfação, melhor condiz com a virtude do que com qualquer outra coisa. Esta
volúpia, para ser mais forte, nervosa, robusta, viril, é por isso também mais
fortemente voluptuosa. E devemos dar a ela o nome do prazer, que é mais propício,
mais doce e natural: não o da virtude, com o qual a chamamos. 3.
A virtude e o desprezo da morte
A felicidade e a bem-aventurança que resplandecem na virtude preenchem
todas as suas pertinências e todas as suas ambiências, desde sua entrada até
sua última porta. Ora, entre os principais benefícios da virtude está o
desprezo da morte. É um meio que fornece à nossa vida uma doce tranqüilidade,
que torna nosso gosto puro e amável, sem que seja apagada qualquer outra volúpia.
Eis porque todas as regras se encontram e convêm neste princípio. E,
embora elas também nos levem de comum acordo a desprezar a dor, a pobreza e
outros acidentes aos quais a vida humana está sujeita, isso não acontece com
igual preocupação, seja porque tais acidentes não são absolutamente necessários
(a maior parte dos homens transcorre a vida sem provar a pobreza, e outros ainda
sem provar dor e doença, como Xenófilo o Músico, o qual viveu cento e seis
anos com saúde absoluta) ou porque, na pior das vezes, a morte pode pôr fim,
quando nos aprouver, e eliminar todos os outros inconvenientes, mas, quanto à
morte, ela é inevitável. 4.
Ensinar a morrer é ensinar a viver
Eu, no momento, estou, graças a Deus,
em tal condição que posso partir quando lhe aprouver [...]. Como os egípcios que, depois de seus banquetes, mandavam apresentar aos presentes uma grande imagem da morte de alguém que lhes gritava: “Bebe e goza, pois, quando morto, assim serás”; do mesmo modo tenho por hábito, de modo contínuo, manter a morte não só no pensamento mas também na boca; e não há nada de que me informe com tanto prazer como da morte dos homens: que palavras, que aspecto, que postura tiveram naquele momento, e não há passagem das histórias que eu não note com tanta atenção. Pela interpolação de meus exemplos manifesta-se como eu tenha particular amor por este assunto. Se eu fosse um fazedor de livros, faria um livro comentado sobre diversas mortes. Quem ensinasse os homens a morrer, estaria lhes ensinando a viver. 5.
É preciso tirar a máscara das coisas, e também das pessoas
Ora, pensei freqüentemente de onde provém que nas guerras a imagem da
morte, tanto ao vê-la em nós como nos outros, nos parece sem comparação
menos terrível do que em nossas casas; de outra forma, veríamos um exército
de médicos e de carpideiras; e pensei que, sendo ela sempre uma só, há sempre
mais força de ânimo nas pessoas de aldeias e de baixa condição do que na
outra. Na verdade, creio que existam as imagens e aparências terríveis, com as
quais circundamos a morte e que nos dão mais medo do que ela própria: um modo
completamente diferente de se comportar, os gritos das mães, das mulheres e dos
filhos, as visitas de pessoas espantadas e abatidas, a assistência de uma
multidão de servos pálidos e lacrimosos, um quarto sem luz, círios acesos, médicos
e padres apinhados à nossa cabeceira; em suma, todo horror e espanto ao nosso
redor. Eis-nos já sepultados e soterrados. As crianças têm medo até de seus
amigos, quando os vêem com aquela máscara, e assim a temos nós. É preciso
tirar a máscara das coisas, e também das pessoas: quando for tirada,
encontraremos sob ela apenas aquela mesma morte que um servo ou uma simples
camareira assistiram sem nenhum medo. Feliz a morte que acontece sem os enfeites
de tal aparato. Michel de
Montaigne, Ensaios. |