Nicolau de Cusa

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A douta ignorância

Uma das personalidades de maior destaque do Quatrocentos, talvez o gênio especulativamente mais dotado, foi Nicolau de Cusa, assim chamado por causa da cidade de Kues (hoje Bernkastel, sobre o Mosel), onde nasceu em 1401 (seu nome era Kryfts ou, na grafia modernizada, Krebs). Alemão de origem, mas italiano por formação, Nicolau estudou especialmente em Pádua. Foi ordenado sacerdote em 1426 e tornou-se cardeal em 1448. Morreu em 1464.Entre suas obras, podemos recordar: A douta ignorância (1438-1440) da qual incluímos aqui algumas partes, As conjecturas (elaboradas entre 1440 e 1445), A busca de Deus (1445), A filiação de Deus (1445), A apologia da douta ignorância (1449), O idiota (1450), A visão de Deus (1453), A esmeralda (1458), O príncipe (1450), O poder ser (1460), O jogo da bola (1463), A caça da sabedoria (1463), O compêndio (1463) e O ápice da teoria (1464).

O conceito de “douta ignorância”  

A “coincidência dos opostos” em Deus

O princípio “tudo está em tudo”e seu significado

O máximo absoluto e a natureza do homem como microcosmo

I O conceito de “douta ignorância”  

          O conceito de “douta ignorância” é certamente um dos mais significativos e mais conhecidos entre os conceitos elaborados por Nicolau de Cusa.

            Conhecer implica sempre uma passagem do conhecido ao desconhecido. No âmbito das coisas finitas esta passagem é sempre possível, por mais difícil que possa ser em certos casos, porque aquilo que é buscado está sempre em proporção àquilo que é conhecido e do qual se parte. Ao contrário, quando se indaga sobre Deus, falta esta relação ou proporção, porque Deus é infinito, e entre o finito e o infinito não há proporção.

            A consciência que se adquire desta “desproporção” entre nossa mente e o infinito é justamente a “douta ignorância” criticamente fundada. Podemos nos aproximar da verdade apenas por aproximação, sem jamais podê-la compreender de modo preciso e que não resulte insuperável em um modo ainda mais preciso.

1. Em toda pesquisa procedemos comparando e proporcionando as coisas incertas com pressupostos certos

              Dom de Deus, vemos que em todas as coisas é inerente certa aspiração natural de existir do melhor modo permitido pela natureza de cada uma delas; e todas agem em vista deste fim e têm meios adequados; e a elas está ligada certa capacidade de julgamento conveniente com a finalidade de conhecer sua finalidade, a fim de que sua aspiração não seja vã e cada uma possa alcançar a paz no centro de gravidade para o qual tende a própria natureza. Se acontecer diversamente, é seguramente devido a causas acidentais, como quando uma doença corrompe o gosto ou uma opinião desvia a razão. Por isso dizemos que um intelecto são e livre conhece e abraça com amor a verdade que aspira insaciavelmente alcançar quando vai indagando sobre toda coisa com o procedimento discursivo que lhe é inerente; e sem dúvida a verdade mais segura é a de que toda mente, que seja sã, não pode discordar. Todos aqueles que buscam, julgam as coisas incertas comparando-as e proporcionando-as com um pressuposto que seja certo. Toda busca tem caráter comparativo e emprega o meio da proporção. E quando os objetos da busca podem ser comparados ao pressuposto certo e a ele serem proporcionalmente conduzidos por um caminho breve, então o conhecimento se torna fácil. Contudo, se temos necessidade de muitas passagens intermediárias, nascem dificuldades e fadiga: vemos isso na matemática, onde as primeiras proposições são remetidas aos princípios primeiros, por si mesmos conhecidos, com facilidade, enquanto é mais difícil aí reconduzir as proposições sucessivas, e é preciso fazê-lo através das proposições precedentes.

2. O infinito, enquanto transcende toda proporção e comparação, é incognoscível

             Toda pesquisa consiste portanto em uma proporção com a qual se compara, que é fácil ou difícil. Mas o infinito, enquanto infinito, uma vez que se subtrai a qualquer proporção, nos é desconhecido. A proporção exprime conveniência e, ao mesmo tempo, alteridade em relação a algo, e por isso não a podemos entender sem empregar os números. O número inclui em si tudo aquilo que pode ser proporcionado. O número, que constitui a proporção, não existe apenas no âmbito da quantidade, mas também em todas as outras coisas que, de qualquer modo, podem convir ou diferir entre si pela substância ou pelos acidentes. Por isso, talvez, Pitágoras pensava que tudo existe, tem consistência e é inteligível em virtude dos números.

3. A douta ignorância como consciência fundada da ignorância que é própria do homem

              Todavia, a precisão nas combinações entre as coisas corpóreas e uma proporção perfeita entre o conhecido e o desconhecido é superior às capacidades da razão humana, razão pela qual parecia a Sócrates não conhecer nada mais que a própria ignorância;1 e Salomão, sapientíssimo, sustentava que “todas as coisas são difíceis” e inexplicáveis com nossas palavras;2 e outro sábio, dotado de espírito divino, diz que a sabedoria e o lugar da inteligência estão escondidos “aos olhos de todos os viventes”.3 Portanto, se é assim, que também Aristóteles, o pensador mais profundo, na filosofia primeira afirma que nas coisas por sua natureza mais evidentes encontramos uma dificuldade semelhante à de uma coruja que tentasse fixar o sol,4 então quer dizer que desejamos saber não saber, dado que o desejo de saber, que está em nós, não deve ser vão. E se pudermos alcançá-lo plenamente, teremos alcançado uma douta ignorância. A coisa mais perfeita que um homem por mais interessado que esteja no saber poderá alcançar na sua doutrina é a consciência plena da ignorância que lhe é própria. E tanto mais será douto, quanto mais se saiba ignorante. É em vista deste fim que assumi a fadiga de escrever algumas poucas coisas sobre a douta ignorância.

4. O intelecto humano jamais pode compreender a verdade    de modo tão preciso que não a possa compreender de modo ulteriormente sempre mais preciso, ao infinito

              Se é por si evidente que o infinito não tem proporção com o finito, segue-se do modo mais claro que, onde é dado encontrar um mais e um menos, não se chegou ao máximo em todos os sentidos, pois as coisas que admitem um mais e um menos são entidades finitas. Um máximo de tal porte é necessariamente infinito. Dada uma coisa qualquer, que não seja o máximo em todos os sentidos, é claro que poder-se-á dar algo maior do que ela. E uma vez que encontramos que a igualdade é gradual, de modo que uma coisa é igual mais a uma outra e não a uma terceira, em base a conveniências e a não-conveniências, em relação a coisas semelhantes, no gênero, na espécie, na situação local, na capacidade de influência, no tempo, é evidente que não se podem encontrar duas ou mais coisas tão semelhantes e iguais entre si, que não se dêem outras mais semelhantes, ao infinito. Por isso a medida e a coisa medida, por mais se avizinhem para ser iguais, permanecerão sempre diferentes entre si.

              Um intelecto finito, portanto, não pode alcançar com precisão a verdade das coisas procedendo mediante semelhanças. A verdade não tem graus, nem a mais nem a menos, e consiste em algo de indivisível; de modo que aquilo que não seja o próprio verdadeiro, não pode medi-la com precisão, assim como o não-círculo não pode medir o círculo, cuja realidade é algo de indivisível. Por isso, o intelecto, que não é a verdade, jamais consegue compreendê-la de modo tão preciso que não possa compreendê-la de modo mais preciso, ao infinito; e tem com a verdade uma relação semelhante à do polígono com o círculo: o polígono inscrito, quanto mais ângulos tiver tanto mais se tornará semelhante ao círculo, mas jamais se tornará igual a ele, mesmo que multiplique ao infinito os próprios ângulos, a menos que não se resolva em identidade com o círculo.

              É portanto evidente que, no que se refere ao verdadeiro, não sabemos mais do que o fato de ele ser incompreensível em sua realidade de modo preciso; que a verdade é como a necessidade mais absoluta, que não pode ser nem mais nem menos do que aquilo que é, e nosso intelecto é como a possibilidade. A essência das coisas, que é a verdade dos entes, é inatingível em sua pureza, buscada por todos os filósofos, mas por nenhum deles descoberta em sua realidade em si. E quanto mais a fundo formos doutos nesta ignorância, tanto mais teremos acesso à própria verdade.

  Nicolau de Cusa, A douta ignorância.

Notas: 

1Cf. Platão, Apologia de Sócrates, 25b.

2Eclesiastes 1,8.

3Jó 28,21.

4Cf. Aristóteles, Metafísica, livro II, 1, 993b 9ss.

II A “coincidência dos opostos” em Deus

   

             Outro conceito fundamental sobre o qual se baseia o pensamento de Nicolau de Cusa é o da coincidência dos opostos em Deus.

              Colocando-se acima da razão discursiva, que procede através de afirmação e negação, baseando-se justamente sobre a distinção dos opostos (ou seja, afirmando um dos dois opostos e negando o outro, ou vice-versa), o homem pode com a intuição intelectiva colocar-se acima do discurso racional, e compreender como no infinito o “máximo absoluto” e o “mínimo absoluto” coincidem.

              Um exemplo alusivo é, a propósito, o do círculo: se aumentado ao infinito, todo ponto nele se tornará centro e ao mesmo tempo ponto extremo, e todo arco, corda, raio e diâmetro ao infinito virão a coincidir.

              Deste modo, Deus ao infinito é todas as coisas, e, ao mesmo tempo, nenhuma delas, justamente porque, sendo ele cada uma maximamente, é ao mesmo tempo cada uma minimamente, por causa da coincidência, no infinito, de máximo e mínimo.

              Neste sentido, sempre por causa da coincidência dos opostos no infinito, Deus é a Unidade absoluta, ou seja, a Unidade que em ato é tudo aquilo que tem a possibilidade de ser, justamente na infinita absolutez.

1. Em que sentido máximo e mínimo no absoluto coincidem

              O máximo absoluto em todo sentido, do qual não pode haver coisa maior, nós o captamos apenas no modo do incompreensível, pois ele é superior à nossa capacidade de compreendê-lo, pelo fato de ser verdade infinita.

              Ele não pertence à natureza das coisas que admitem um mais e um menos, mas está acima de tudo o que possa ser concebido por nós. Todas as coisas, sejam elas quais forem, que apreendemos com os sentidos, com a razão ou com o intelecto, diferem em si mesmas e uma em relação à outra de modo tal que entre elas não se dá nenhuma igualdade precisa. A igualdade máxima, que não admite alteridade ou diversidade em relação a alguma coisa, supera toda capacidade do intelecto.

              O máximo em sentido absoluto, uma vez que é tudo aquilo que pode ser, está plenamente em ato. E como não pode ser maior [daquilo que é], pelo mesmo motivo não pode ser menor, dado que ele é tudo aquilo que pode ser.

              Mínimo é aquilo do qual não pode haver coisa menor. E, uma vez que o máximo é da mesma natureza, é claro que o mínimo coincide com o máximo.

              Isso se tornará mais claro para ti se considerares o máximo e o mínimo contraídos em quantidade.

              A quantidade máxima é maximamente grande. A quantidade mínima é maximamente pequena. Liberta agora da quantidade o máximo e o mínimo, subtraindo-lhes, com o intelecto, a noção de grande e de pequeno, e verás com clareza que o máximo e o mínimo coincidem.

              Tanto o máximo como o mínimo são superlativos. Portanto, na quantidade absoluta não há motivo para que seja máxima em vez de mínima, pois nela o mínimo é o máximo, coincidindo os dois entre si.

2. A coincidência dos opostos é captada colocando-se acima da razão discursiva

              Os opostos se encontram apenas nas coisas que admitem o mais e o menos, e aí se encontram de modos diversos; mas em nada convêm ao máximo absoluto, pois ele é superior a toda oposição. Portanto, uma vez que o máximo em sentido absoluto é em ato, de modo máximo, todas as coisas que podem ser, sem qualquer oposição, pelo fato de no máximo estar a coincidência do mínimo, ele é também superior a toda afirmação, assim como a toda negação.

              E tudo aquilo que nele é concebido como ser, não há razão para que seja em vez de não ser. E tudo aquilo que nele se concebe como não-ser, não há razão para que não seja em vez de ser. Mas ele é esta coisa de modo tal que é todas as coisas, e é todas as coisas de modo tal que não é nenhuma coisa. E é de modo máximo esta coisa, de modo tal que ele é ela de modo mínimo.

              Dizer: “Deus, que é a própria maximidade absoluta, é luz”, é o mesmo que dizer: “Deus é maximamente luz de modo tal que é luz minimamente”. Se assim não fosse, a maximidade absoluta não seria em ato todas as coisas possíveis, isto é, se ela não fosse infinita, termo de todas as coisas, mas determinável por nenhuma delas. [...]

            Este pensamento transcende toda a nossa capacidade intelectiva, a qual, seguindo o caminho da razão, não consegue colocar junto os contraditórios no próprio princípio. Caminhamos entre as coisas que a natureza nos torna manifestas; e a razão, bem distante desta força infinita, não sabe ligar junto os contraditórios, que distam infinitamente entre si. Vemos, portanto, que a absoluta maximidade é infinita, acima de todo discurso racional, a maximidade à qual nada se opõe, e com a qual o mínimo coincide. Máximo e mínimo, assim como são empregados neste livro, são termos transcendentes, dotados de um significado absoluto, e abarcam em sua absoluta simplicidade todas as coisas, acima de toda contração em um significado de ordem quantitativa, relativa a massas e forças.

3. A maximidade absoluta é o Uno absoluto

              Mas a unidade não pode ser número, pois o número admite sempre um mais, e não pode ser nem mínimo nem máximo em todo sentido. Todavia, ela é princípio de todo número, pois é o mínimo. E é o fim de todo número, pois é o máximo. Portanto a unidade absoluta, à qual nada se opõe, é a própria maximidade absoluta, que é Deus bendito. Tal unidade, sendo máxima, não é multiplicável, pois é tudo aquilo que pode ser. E, portanto, ela não pode se tornar número.

              Vê, portanto, que as considerações sobre o número nos levaram a entender como a Deus inominável convenha mais de perto a unidade absoluta, e que Deus é uno de modo tal que ele é em ato tudo aquilo que tem a possibilidade de ser.

              Tal unidade não acolhe o mais e o menos, e não é multiplicável. A divindade é unidade infinita. Aquele que disse: “Ouve, Israel” o teu Deus “é uno”;1 e: “uno é o mestre” e é “o vosso pai nos céus”,2 não teria podido dizer coisa mais verdadeira.

 

Nicolau de Cusa, A douta ignorância.

Notas:

1Deuteronômio 6,4.

2Mateus 23,8-9.

III O princípio “tudo está em tudo”e seu significado

            O antigo princípio de Anaxágoras “tudo está em tudo” é retomado pelo Neo-platonismo, e é levado por Nicolau de Cusa às extremas conseqüências. Em Anaxágoras o princípio valia para as “homeomerias”, que constituem a matéria da qual as coisas são feitas: todas as homeomerias estão presentes em todas as coisas, ainda que em pequeníssima medida, mas a Inteligência permanecia completamente fora desse nexo. No Neo-platonismo assume, ao contrário, um significado global e uma validez absoluta para toda forma de realidade em todos os níveis.

              Nicolau, ao aprofundar e desenvolver este princípio, serve-se do conceito metafísico de “contração”. Este conceito significa o de-terminar-se de algo de mais geral e universal em alguma coisa mais particular ou mais definida e em uma multiplicidade estrutural. Colocando-nos nesta óptica conceitual, se Deus é máximo, absoluto, infinito, o cosmo aparece como ser Deus de modo contraído, ou seja, vem a ser o uno, o absoluto e o infinito de-terminado em uma multiplicidade de coisas especificamente diferenciadas e finitas. Por sua vez, o universo está em toda coisa singular de modo contraído, ou seja, está em cada coisa especificamente de-terminado e diferenciado, e individualmente multiplicado.

1. O antigo princípio de Anaxágoras “tudo está em tudo”  na interpretação metafísica neo-platônica

              Se considerares com agudez tudo o que foi dito, não te será difícil ver o fundamento de verdade daquela expressão de Anaxágoras que “toda coisa está em toda coisa”,1 verdade talvez mais profunda do que o próprio Anaxágoras pensasse. Com efeito, uma vez que do primeiro livro se conclui que Deus está em todas as coisas de modo tal que todas estão nele, e uma vez que agora nos consta que Deus está em todas as coisas como que por meio do universo, a partir disso temos que todas as coisas estão em todas e toda coisa está em cada uma.

             O universo, por certa ordem de natureza, precedeu toda coisa como realidade perfeitíssima, de modo que toda coisa pudesse estar em toda coisa.

             Em toda criatura o universo é o ser daquela mesma criatura, e assim toda coisa recebe todas as coisas, de modo que nela estejam o próprio ser delas, contraído.

             Uma vez que toda coisa não pode ser em ato todas as coisas, estando contraída, ela contrai em si todas as coisas, a fim de que estas sejam o seu próprio ser.

             Se todas as coisas estão em todas as coisas, todas as coisas parecem preceder cada coisa. Mas a totalidade das coisas não é pluralidade, pois a pluralidade não precede cada coisa. Todas as coisas, portanto, sem pluralidade, precederam toda coisa por uma ordem natural. A pluralidade, portanto, não está em ato em toda coisa, mas todas as coisas, sem pluralidade, são o próprio ser de cada uma.

2. Em que sentido Deus está em todas as coisas e todas as coisas estão em Deus

            O universo está nas coisas apenas de modo contraído, e toda coisa que existe em ato contrai todas as coisas, de modo que elas sejam em ato aquilo que cada uma é. Tudo aquilo que existe em ato está em Deus, porque ele é o ato de todas as coisas. O ato é a perfeição e o fim da potência. Portanto, uma vez que o universo está contraído em toda coisa existente em ato, é evidente que Deus, que está no universo, está em toda coisa, e toda coisa existente em ato está imediatamente em Deus, enquanto ela é o universo.

            Portanto, dizer “toda coisa está em toda coisa” é o mesmo que dizer Deus, mediante todas as coisas, está em todas, e todas as coisas, mediante todas, estão em Deus.

            Estes pensamentos muito profundos se compreendem com clareza e com agudez de intelecto, isto é, que Deus sem diversidade está em todas as coisas, porque toda coisa está em toda coisa, e que todas as coisas estão em Deus, porque todas estão em todas. Todavia, uma vez que o universo está em cada coisa, de modo tal que cada uma esteja nele, o universo é em cada coisa contraidamente aquele ser que cada uma é de modo contraído, e toda coisa no universo é o próprio universo, embora o universo em cada coisa esteja de modo diverso, e toda coisa, igualmente, esteja diversamente no universo.

3. Exemplo da linha e das figuras

            Eis um exemplo. É claro que a linha infinita é linha, triângulo, círculo e esfera. Toda linha finita tem o próprio ser a partir da linha infinita, e está é todo o ser dela. Por isso, na linha finita todo o ser da linha infinita – que é linha, triângulo etc. – é o próprio ser da linha finita. Toda figura, na linha finita, é a mesma linha.

            E não é que nela exista triângulo, ou círculo, ou esfera em ato, porque de mais coisas em ato não temos um ato só, uma vez que toda coisa não está em ato em toda coisa, mas o triângulo na linha é linha, o círculo na linha é linha, e assim por diante.

            Para que vejas isso com maior clareza: a linha só pode estar em ato no corpo [.

            Ninguém põe em dúvida que em um corpo, dotado de comprimento, largura e profundidade, estejam complicadas todas as figuras. Na linha em ato todas as figuras em ato são a própria linha, e no triângulo são triângulo, e assim por diante.

            Com efeito, todas as coisas na pedra são pedra, na alma vegetativa são a mesma alma vegetativa, na vida são vida, no sentido são sentido, na vista são vista, no ouvido são ouvido, na imaginação, imaginação, na razão, razão, no intelecto, intelecto, em Deus, Deus.  

            E agora vês como a unidade das coisas, ou seja, o universo, está na pluralidade e, vice-versa, a pluralidade está na unidade.  

4. Todas as coisas são, na coisa específica, a própria coisa, e a própria coisa, em Deus, é Deus  

            Olha mais atentamente, e verás que toda coisa existente em ato encontra paz porque tudo nela é ela própria, e ela em Deus é Deus. Vês assim a estupenda unidade das coisas, a admirável igualdade, a admirável conexão, de modo que todas as coisas estão em todas.

            Compreendes também como disso procedam a diversidade e a conexão das coisas. Com efeito, toda coisa não pode ser em ato todas as coisas, uma vez que desse modo ela teria sido Deus, e por isso todas as coisas estariam em cada uma segundo a possibilidade do ser própria de cada uma. E nem toda coisa poderia ser em tudo semelhante a uma outra [...].

5. Ulterior exemplificação do “tudo em tudo” na imagem do homem e de seus membros

            Todas as coisas, portanto, encontram paz em cada uma delas, uma vez que um grau do ser não poderia estar sem o outro, como, entre os membros de um corpo, todo membro é útil ao outro e todos encontram paz em todos. Uma vez que o olho não pode ser em ato também mão, pé e todos os outros membros, o olho se contenta de ser olho, e o pé de ser pé.

            Todos os membros se ajudam reciprocamente, de modo que cada um deles subsiste no próprio ser do melhor modo possível.

            A mão e o pé não estão no olho, mas no olho eles são olho, enquanto o olho está no homem de modo imediato.

            E assim também todos os membros estão no pé, porque o pé está de modo imediato no homem, e assim todo membro através de todo outro membro está imediatamente no homem, e o homem, ou seja, o todo, em virtude de cada membro está em cada outro membro, assim como o tudo está nas partes, ou seja, em cada parte em virtude de cada uma das outras.

            Se considerares a humanidade como algo de absoluto, não misturável e não contraível, e considerares o homem no qual está a mesma humanidade de modo absoluto e do qual procede a humanidade contraída, que é o ser do homem, então a humanidade absoluta é como Deus, e a contraída é como o universo.

            A humanidade absoluta está no homem de modo principal e prioritário e, em conseqüência disso, também está em cada membro e em cada parte; a humanidade contraída, ao contrário, no olho é olho, no coração é coração, e assim por diante, ou seja, de modo contraído em cada coisa é cada coisa.

 Nicolau de Cusa, A douta ignorância.  

Notas:

1Anaxágoras, fr. 1 Diels-Kranz.

IV O máximo absoluto e a natureza do homem como microcosmo

 

            Com base nos conceitos que lemos nas páginas precedentes, Nicolau de Cusa apresenta o homem como “microcosmo”. O homem, com efeito, contrai as realidades superiores (angélicas) e as realidades inferiores (as animais e as vegetais) como realidade média ou intermediária.

            Em Deus feito homem (no Filho), o máximo, o mínimo e o médio da natureza se unem sinteticamente no máximo absoluto, de modo tal que Ele se impõe como a perfeição absoluta de todas as coisas.

              Mas também considerado em si, o homem é como um Deus humano, um infinito “humanamente contraído”, e todas as coisas do universo existem no homem sob forma humana, e neste sentido justamente o homem é um “microcosmo”.

1. A natureza humana como a mais elevada das criaturas

         A natureza humana é a que vemos elevada acima de todas as obras de Deus, um pouco menor em relação à natureza angélica; ela complica a natureza intelectual e a sensível, e abraça em si mesma todas as coisas, de modo a ser chamada justamente pelos antigos de microcosmo ou pequeno mundo. Ela é aquela que, se fosse elevada à união com a maximidade, constituiria a plenitude de todas as perfeições do universo e dos entes singulares, e na unidade todas as coisas alcançariam seu grau supremo.  

2. Em Deus encarnado no homem está a totalidade contraída de todas as coisas

            A humanidade existe apenas de modo contraído neste ou naquele homem. De modo que não seria possível que mais do que um só verdadeiro homem ascendesse à união com a maximidade, e este, certamente, seria homem de modo tal que seria Deus, e Deus de modo tal que seria homem, perfeição do universo, primeiro em todas as coisas; nele o mínimo, o máximo e o médio da natureza, unidos à maximidade absoluta, coincidiriam de modo tal que ele seria a perfeição de todas as coisas, e todas as coisas, enquanto contraídas, nele encontrariam paz como em sua perfeita realização.

            Ele seria medida do homem e do anjo, como diz João no Apocalipse;1 seria também medida de cada coisa singular, porque seria entidade contraída das criaturas singulares em virtude da união com a entidade absoluta, que é entidade absoluta de tudo. Através dele todas as coisas receberiam o início e o fim de sua contração, uma vez que através dele, que é máximo contraído, todas as coisas a partir do máximo absoluto seriam colocadas no ser da contração, e retornariam ao absoluto pela mediação dele, como princípio da emanação e fim do retorno.

3. Cristo, filho de Deus e filho do homem

            Deus, sendo a igualdade do ser para todas as coisas, é o criador do universo, o qual foi criado tendo Deus como fim. A igualdade suma e máxima do ser em relação a todas as coisas em sentido absoluto seria aquela à qual se uniria a natureza da humanidade, e assim Deus, em virtude da humanidade que assumiu, seria contraidamente todas as coisas na humanidade, assim como é absolutamente todas as coisas pela igualdade do ser. Este homem, portanto, uma vez que subsiste em virtude da união na mesma igualdade máxima do ser, seria filho de Deus como seu verbo, no qual foram feitas todas as coisas, ou seja, seria a mesma igualdade do ser, a qual se chama filho de Deus [...]; e todavia não deixaria de ser filho do homem, assim como não deixaria de ser homem.

4. Em que sentido o homem é “microcosmo”

            Admirável criação de Deus é esta, na qual, gradualmente, o poder do discernimento do ponto central dos sentidos é levado até a natureza intelectual suprema, através de graus e de certos riachos orgânicos, onde, com continuidade, as ligações produzidas pelo mais sutil espírito corpóreo são tornadas luminosas e simples até a vitória da virtude da alma e até a que tal faculdade do discernimento chegue à célula do poder da razão. Daí, em seguida, ele chega até a virtude suprema do intelecto, como através de um fio se chega ao mar sem fim, onde se conjectura haver outros coros, disciplina, inteligência e intelectualidade simplicíssima.

            A unidade do humano, uma vez que está contraída humanamente, parece complicar tudo segundo a natureza desta contração. O poder desta sua unidade abraça a universalidade das coisas e a contém dentro dos termos da própria região, de modo que nada de tudo lhe escape. Uma vez que se conjectura que todo ente seja captado ou mediante o sentido, ou mediante a razão, ou mediante o intelecto, e o homem vê que estas faculdades são complicadas em sua unidade, supõe poder-se estender, de modo humano, a todos os entes.

            O homem é, com efeito, Deus, mas não em sentido absoluto, porque é homem; é, portanto, um Deus humano. O homem é também mundo, mas não é contraidamente todas as coisas, porque é homem. Ele é por isso microcosmo ou mundo humano. A região da humanidade abraça Deus e o mundo universal no seu poder humano. O homem pode ser Deus humano e, como Deus, pode ser de modo humano, anjo humano, besta humana, leão humano ou urso ou qualquer outro ser. No poder humano existem todos os entes conforme o modo desse poder.

            Na humanidade todas as coisas estão explicadas humanamente, assim como no universo elas o são no modo do universo, de modo que existe um mundo humano.

            Na humanidade, por fim, todas as coisas estão complicadas de modo humano, porque o homem é um Deus humano.

            A humanidade é unidade, e ela é um infinito humanamente contraído.

            Uma vez que é propriedade da unidade explicar por si os entes, dato que ela é entidade que os complica em sua simplicidade, também a humanidade tem o poder de explicar por si todas as coisas dentro do círculo da própria região, de extrair tudo a partir da potência do centro. É propriedade da unidade pôr-se como fim das explicações, pois é infinidade.

            Por isso o criar ativo próprio da humanidade não tem outro fim a não ser a própria humanidade. Esta não se volta para fora de si quando cria, mas, quando explica a própria virtude, tende a si mesma. E não produz algo que seja novo, mas percebe que tudo o que está criando na explicação estava já em si mesma. Dissemos, com efeito, que todas as coisas existem no homem sob forma humana.

            Assim como o poder da humanidade tem a capacidade de estender-se a todas as coisas sob forma humana, também todas as coisas têm este poder em relação a ela, e que este admirável poder humano se dirija a percorrer todas as coisas não é mais que um complicar em si, sob forma humana, todas as coisas.

Nicolau de Cusa, A douta ignorância

Notas:

1Apocalipse 21,