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©Roberto Girola(Novembro 1999) Índice dos conteúdos O contexto histórico de Além do princípio de prazer Os pontos de contato com a filosofia de Schopenhauer
IntroduçãoA pulsão de morte é um conceito introduzido por Freud em 1920, na sua obra Além do princípio de prazer. Trata-se de um dos mais discutidos conceitos da teoria psicanalítica, como afirma Daniel Widlöcher ao justificar a escolha deste tema para o Primeiro Simpósio organizado pela Sociedade Européia de Psicanálise em 1984, que resultou na publicação de um pequeno volume,[1] contendo as exposições de alguns renomados psicanalistas sobre o tema. Na opinião deste autor, o conceito de pulsão de morte formaliza “uma teoria geral que organiza, num sistema explicativo mais vasto, a interação dos processos psíquicos”.[2] Para Renato Mezan trata-se de um elemento novo; um ponto de partida para uma fase diferente da malha conceitual freudiana.[3] Novo não apenas em relação à teoria das pulsões e à concepção da doença neurótica e por conseqüência da terapia, mas sobretudo novo do ponto de vista antropológico, introduzindo na psicanálise uma dimensão especulativa, a partir do tema da violência.[4] As discussões relatadas no livro A pulsão de morte mostram claramente como estejamos longe de um consenso entre os psicanalistas sobre o alcance e a real interpretação desta teoria, no âmbito dos conceitos previamente estabelecidos por Freud para descrever o psiquismo humano. Contudo, o que
me chamou a atenção e me levou a conceber este estudo foi a constatação, ao
aproximar os textos freudianos, de determinados temas que, à primeira vista
parecem estar bastante ligados a algumas das teses enunciadas pelo filósofo
alemão Schopenhauer. Conceitos como inconsciente, pulsão de vida, repressão e
até a dominância da sexualidade na vida humana, tidos normalmente como
tipicamente freudianos, se abrem caminho nas páginas deste filósofo e mostram
como o pensamento de Freud, de certa forma, representa o amadurecimento de
conceitos que, em sua época, iam se abrindo caminho por outras vias. O próprio conceito de pulsão de morte
parece encontrar alguma relação com o pano de fundo da filosofia
schopenaueriana. Com isto não pretendo de forma alguma negar a genialidade e
a originalidade do pensamento freudiano. No decorrer deste trabalho, vamos
percorrer de forma sintética os passos que levaram Freud a elaborar sua
teoria sobre a pulsão de morte. Lendo os textos, não é possível duvidar que
esta teoria seja originalmente freudiana. Ela emerge inteiramente de
considerações tecidas a partir da experiência analítica. Como veremos, o
próprio Freud, ao tomar conhecimento dos textos de Schopenhauer, admite a
coincidência de algumas das teses do filósofo alemão com a Psicanálise, mas
também afirma peremptoriamente que os caminhos pelos quais a Psicanálise e a
Filosofia chegaram a conclusões parecidas são completamente diferentes. No
entanto, acredito seja importante perceber como o pensamento de Freud se
insere em seu tempo, até para sublinhar ainda mais sua importância e ao mesmo
tempo para perceber sua originalidade. Aliás, um estudo comparativo de Freud
com os filósofos do seu tempo seria sem dúvida inspirador, pois nos obrigaria
a aprofundar a visão freudiana e a compará-la com outras abordagens
epistemológicas. Neste estudo, contudo, nos limitaremos à análise de
Schopenhauer. Sobre a
relação de Freud com a filosofia não existem dúvidas. Como observa R. Mezan
na introdução do livro Freud: a trama
dos conceitos,[5]
Freud considera a Filosofia com desprezo e “satiriza a pretensão do saber
absoluto, o dogmatismo e a indiferença pela investigação empírica”.[6]
As referências à Filosofia são escassas em sua obra. Se excetuarmos os textos
que se referem a Schopenhauer, encontraremos apenas algumas rápidas alusões a
Platão, Aristóteles, Empédocles e Kant. Tudo indica que Freud conhecia pouco
as obras dos filósofos, inclusive as dos seus contemporâneos e até chega a
afirmar, como veremos, que se absteve voluntariamente deste tipo de leitura,
justamente para que nada interferisse no seu processo de construção de uma
teoria, que ele queria fosse extraída unicamente da análise “científica” do
comportamento humano, a partir de suas experiências como terapeuta. O contexto histórico de Além do princípio de prazer Como as idéias não surgem do nada, vale a pena
lembrar o contexto histórico em que a obra Além do princípio de prazer se insere. Estamos em Viena, nos anos
que sucedem imediatamente ao fim da Primeira Guerra Mundial. A luta nos
Balcãs, no ano de 1918, é catastrófica para os Impérios Centrais. Uma força
de cerca de 700.000 soldados aliados inicia uma grande ofensiva contra as
tropas alemãs, austríacas e búlgaras na Sérvia. Os búlgaros, totalmente
derrotados, assinam um armistício com os aliados. Além disso, estes obtêm a
vitória definitiva na frente italiana entre outubro e novembro. A comoção da
derrota provoca rebeliões no Império Austro-Húngaro, que se vê obrigado a
assinar um armistício com os aliados em 3 de novembro. Carlos I abdica oito dias depois e a 12 de
novembro é proclamada a República da Áustria.[7] Com a mudança
radical das estratégias de guerra e dos armamentos bélicos, o número de
mortos tinha sido enorme, de ambos os lados, dando uma conotação
particularmente violenta e cruel ao conflito. Mortalmente ferido, o império
austro-húngaro nunca mais se levantará. Se antes da guerra Viena vivia uma
época de ouro, pautada pela fervilhante vida social e cultural da corte
imperial, romanticamente embalada pelas notas das valsas, o quadro do
pós-guerra é dramático. Na Áustria, que tinha perdido parte do seu território
e de suas fábricas, instaura-se uma terrível crise econômica. O clima social
é conturbado, como no resto da Europa. O fantasma da fome ronda por toda
parte. Em Viena falta alimento e combustível para o aquecimento. Os bens de primeira necessidade são racionados.
Freud não escapa das duras conseqüências da guerra. Sua situação econômica é
difícil e, por algum tempo, teme pela sorte do filho que tardava a voltar do
fronte. Para tornar o panorama ainda mais dramático, a febre Espanhola ceifa
milhares de vítimas. A própria mulher de Freud adoece e a filha dele morre,
deixando dois netos. Sem dúvida um cenário aterrador, que não inspirava
pensamentos muito otimistas. Repetição e pulsão de
morte
É provável que todos esses fatos tenham levado Freud a refletir sobre a “violência” do viver humano, em todas as suas manifestações: violência do desejo, do qual a guerra tinha sido uma clara expressão, violência da cultura que castra o ser humano, submetendo-o a normas e padrões que frustram seus impulsos, violência dos sistemas autoritários que incorporam o despotismo do superego. No entanto, o caminho através do qual Freud chega ao conceito de pulsão de morte, em Além do princípio do prazer, é outro. Em 1895, no Projeto para uma Psicologia Científica, Freud coloca à base do psiquismo humano a necessidade de reduzir as tensões ao mínimo necessário para a sobrevivência. O que provoca a tensão é a configuração pulsional do psiquismo humano. As excitações não vêm apenas do mundo externo, mas também do próprio organismo humano. O aumento da tensão evidentemente origina desprazer, que, por sua vez, resulta numa descarga em busca do prazer (alívio). A partir deste processo, Freud chegou á sua primeira formulação: o que caracterizaria o funcionamento do psiquismo seria a dominância do princípio do prazer, isto é, base da atividade pulsional humana estaria o princípio de prazer. Os fatos que nos fizeram acreditar na dominância do princípio do prazer na vida mental encontram também expressão na hipótese de que o aparelho mental se esforça para manter a quantidade de excitação nele presente tão baixa quanto possível, ou, pelo menos, por mantê-la constante. [8] Em Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental, Freud retoma temas já abordados no Projeto e na Interpretação dos sonhos. O que rege o funcionamento dos processos mentais primários, no plano do inconsciente, continua sendo o principio do prazer: O propósito dominante obedecido por estes
processos primários é fácil de reconhecer, ele é descrito como o princípio de
prazer desprazer (Lust-Unlust), ou, mais sucintamente, princípio de prazer.
Estes processos esforçam-se por alcançar prazer, a atividade psíquica
afasta-se de qualquer evento que possa despertar desprazer. (Aqui temos a
repressão).[9] O estado de repouso psíquico original é perturbado pelas
exigências da libido. De início, o aparelho psíquico procura satisfação
mediante o processo da alucinação. Ao perceber porém que a alucinação não
leva à satisfação, o psiquismo empenha-se em direção a uma “alteração real”,
em busca de um objeto, mediante uma “comparação com os traços de memória da
realidade”.[10]
Neste momento, porém, entram em ação os instintos de autopreservação do ego,
pois, diante das dificuldades apresentadas pelo mundo externo para a
satisfação do desejo, o princípio de prazer é “ineficaz e até mesmo altamente
perigoso”.[11]
O princípio do prazer, portanto, interage com outro princípio regulador, o principio de realidade, que está
ligado aos processos mentais secundários, os processos em que os estímulos
pulsionais são vinculados a determinadas representações. Esta é justamente a
função do ego: agir como intermediário entre as exigências pulsionais do
inconsciente e o mundo externo, evitando assim que a atividade pulsional se
volte contra o próprio indivíduo e, permitindo, ao mesmo tempo, que a
sobrecarga pulsional seja por assim dizer “encaminhada” pelo psiquismo de
maneira a manter a tensão num estado suportável e o fluxo pulsional numa
situação de constância. Apenas a
título de curiosidade: Freud concebe a educação como “um incentivo à
conquista do princípio do prazer e à sua substituição pelo princípio de
realidade”.[12] Mais tarde, em Além
do princípio de prazer, algumas observações a partir da experiência
clínica e dos jogos infantis, levaram Freud a rever esta concepção.[13]
O que caracteriza essas experiências é a compulsão à repetição. Em si, a
repetição não apresentaria nenhum problema, se tivesse como objeto
experiências agradáveis. Isto confirmaria a predominância do princípio de
prazer, até aqui sustentada por Freud. Mas, em algumas circunstâncias, a
repetição não tem como objeto experiências prazerosas e sim experiências
dolorosas. Freud constata que, nessas experiências, conteúdos inconscientes
reprimidos esforçam-se para se expressar. A primeira experiência a que Freud
se refere é aquela ligada aos sonhos que se relacionam às neuroses
traumáticas. “Os sonhos que ocorrem nas neuroses traumáticas possuem a
característica de repetidamente [o
grifo é meu] trazer o paciente de volta à situação de seu acidente”;[14]
uma experiência, portanto, nada agradável. Observando casualmente as
brincadeiras das crianças, provavelmente seus netos, Freud percebe o mesmo
fenômeno em atividades normais. Neles a criança simboliza, no gesto repetido
de jogar longe de si um brinquedo, a experiência de separação da mãe. “A
partida dela tinha de ser encenada como preliminar necessária a seu alegre
retorno, e (...) neste último residia o verdadeiro propósito do jogo”.[15]
A criança, inicialmente dominada pela experiência de ser abandonada pela mãe,
ao repeti-la na sua brincadeira, assume um papel ativo, como se quisesse
controlá-la. Uma experiência parecida parece ser vivida pelo psiquismo nas
representações artísticas que trazem à tona sentimentos dolorosos (como no
caso de um drama). Freud conclui: “Mesmo sob a dominância do princípio de
prazer, há maneiras e meios suficientes para tornar o que em si mesmo é
desagradável num [sic] tema a ser rememorado e elaborado na mente”.[16]
Mesmo assim, observa Freud, em última análise, estas situações ainda têm a
produção de prazer como resultado final. Onde Freud encontra um indício
inegável da necessidade de ir além do princípio de prazer, é na prática
analítica, em particular no fenômeno da transferência. No processo terapêutico
o objetivo é tornar consciente o que é inconsciente. Este processo, contudo,
não funciona se for apenas baseado nas considerações teóricas do analista,
por este “comunicadas” ao paciente. Para a terapia ter efeito, o paciente é
levado pelo próprio processo terapêutico a “repetir o material reprimido como se fosse uma experiência
contemporânea, em vez de (...) recordá-lo como algo pertencente ao passado”.[17]
Fragmentos da vida sexual infantil e, em particular, elementos ligados ao
complexo de Édipo e seus derivados,[18] são retomados no
processo de transferência. Mais uma vez, assistimos a uma compulsão à repetição, que se origina nas resistências do ego,
em particular no reprimido inconsciente (já que ”grande parte do ego é ela
própria inconsciente”)[19].
Estas resistências do ego funcionam sob a influência do princípio de prazer,
pois buscam evitar o desprazer que a liberação do reprimido provocaria. Neste
caso, porém, “a compulsão à repetição (...) rememora do passado experiências
que não incluem possibilidade alguma de prazer”:[20] seu objetivo
portanto não é evitar o desprazer. Os
pacientes tendem a repetir na transferência todas essas situações indesejadas
e emoções penosas. Isto indica que há na mente “uma compulsão à repetição que
sobrepuja o princípio de prazer”.[21] Trata-se de uma
necessidade cega do inconsciente de realizar o próprio desejo, que, ao ser
bloqueado pelo ego, não tem outra saída a não ser repetir-se indefinidamente.
Como explica Mezan, referindo-se ao processo de repetição nas neuroses traumáticas,
“repetir é procurar ganhar o controle da situação e também preparar o
indivíduo para resistir melhor a traumas futuros, dotando-o da capacidade de
desenvolver angústia e desta forma estar prevendo quando eles ocorrerem”.[22] Para explicar a finalidade a que obedece a compulsão à repetição, é necessário recorrer aos princípios de energia pulsional livre e vinculada. Toda vez que, no psiquismo, se introduz uma quantidade exagerada de excitação (energia livre), é necessário vinculá-la a determinados focos energéticos, para expeli-la sem perder o controle e obter assim o alívio. A vinculação ocorre em nível inconsciente e faz com que o fluxo livre de energia seja convertido numa catexia (fluxo de energia psíquica) quiescente a partir dos traços permanentes mnémicos, representações de experiências do mundo interno e externo, uma verdadeira rede de simulações mentais[23] que se originam a partir das facilitações deixadas pela passagem prévia de energia psíquica por um determinado caminho. A repetição se inscreve neste tipo funcionamento mental. No caso da transferência dos acontecimentos da infância, tal como ocorre na análise, percebe-se que este processo não obedece, como era de se supor, ao princípio do prazer. “Os traços de memória reprimidos de suas experiências primevas não se encontram presentes [no paciente] em estado de sujeição, mostrando-se incapazes de obedecer ao processo secundário”,[24] que os reprimiria por serem traços de memórias de desprazer. A compulsão à repetição tem portanto um traço eminentemente instintual e, neste sentido é uma força pulsional “livre”.[25] Para Freud o instinto é um impulso, inerente à vida orgânica, que visa restaurar um estado anterior das coisas, é um tipo de pulsão que leva a voltar para o estado inorgânico. À análise dos instintos, Freud dedica boa parte do capítulo V de Além do princípio de prazer. A conclusão à qual chega é surpreendente: o instinto somente na aparência é uma força que impele à mudança, na realidade sua natureza é essencialmente conservadora; seu objetivo é voltar a um estado antigo de coisas, “um estado inicial de que a entidade viva (...) se afastou e ao qual se esforça por retornar”.[26] Tudo o que vive tende a morrer por razões internas, a tornar-se novamente inorgânico, neste sentido “o objetivo de toda vida é a morte”. Isto leva Freud a afirmar paradoxalmente que os instintos de autoconservação tendem apenas a fazer com que o organismo morra de seu próprio modo. A pulsão de morte é relacionada por Freud a este tipo de instintos. O funcionamento mental com a introdução do conceito de pulsão de morte passa a ter uma conotação dialética: por um lado uma tendência leva o psiquismo a buscar a paz (por isto Freud se refere ao conceito de Nirvana), enquanto por outro lado, a libido (instintos de vida), introduz no psiquismo uma dose de excitação e impulsiona no sentido da busca de um Objeto. Num primeiro momento, Freud chega a dizer que o principio de prazer, por visar a diminuição da tensão pulsional, estaria a serviço da pulsão de morte. Mais tarde,[27] revê esta interpretação e prefere ver na base do psiquismo três princípios distintos, o princípio de prazer, o princípio de realidade e a pulsão de morte. A este respeito, E. Richardt e P. Ikonen, dizem que o termo pulsão de morte não deveria ser tomado ao pé da letra e sugerem que, como alternativa, se fale em pulsão de ligação, pois o objetivo da pulsão de morte é justamente restabelecer a paz, vinculando a libido não ligada, fonte de toda excitação da mente humana (embora logo admitam que o termo não dá conta de todos os aspectos comumente atribuídos à pulsão de morte).[28] Para eles pulsão de morte seria “um apaziguamento da libido excedente não ligada”. Laplanche deriva a pulsão de morte do recalque originário e a situa no núcleo do Id. No primeiro caso, temos uma interpretação diria mais light da pulsão de morte, na linha de Laplanche uma interpretação mais “radical”: a pulsão da morte é considerada o “inimigo do ego”, uma energia hostil que emana do Id.
Os pontos de contato com a filosofia de SchopenhauerComo já foi dito, ao instinto de morte opõe-se um instinto de vida, baseado nos instintos sexuais, que visam a reprodução e, portanto, um prolongamento da vida. É a esta altura que Freud percebe que o seu raciocínio está seguindo o curso da filosofia de Schopenhauer. Inadvertidamente voltamos nosso curso para a baia
da filosofia de Schopenhauer. Para ele, a morte é o ‘verdadeiro resultado e,
até esse ponto, o propósito da vida, ao passo que o instinto sexual é a
corporificação da vontade de viver’.[29] Além de uma alusão à interpretação do Mito de Édipo por parte de Schopenhauer, Freud volta a mencioná-lo narrando um sonho em que o próprio Freud tentaria com dificuldade interpretar sua teoria do tempo e compará-la com aquela de Kant.[30] Em Sobre a psicopatologia da vida cotidiana, Freud volta a tocar no nome de Schopenhauer, ao relatar um ato falho.[31] Qual seria o significado desta recorrente presença de Schopenhauer nos conteúdos do inconsciente freudiano? Deixando de lado esta curiosidade analítica, vamos continuar analisando os textos em que Freud menciona Schopenhauer. É em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, que, ao defender a psicanálise da acusação de pan-sexualismo, encontramos uma alusão explícita ao pensamento do filósofo alemão e à importância que o mesmo atribuía à sexualidade. Já faz um bom tempo que o filósofo Arthur
Schopenhauer mostrou aos homens em que medida seus feitos e interesses são
determinados por aspirações sexuais (...) e, parece incrível que todo um
mundo de leitores tenha conseguido banir de sua mente, de maneira tão
completa, uma advertência tão impressionante![32] Em Notas sobre um caso de neurose obsessiva, encontramos mais uma alusão a Schopenhauer, que, porém não tem importância para a nossa análise.[33] Já em Totem e tabu, encontra-se uma referência mais interessante, dizendo que, para Schopenhauer, o problema da morte encontra-se na origem de toda filosofia.[34] Na História do movimento psicanalítico, Freud volta a mencionar a proximidade do seu pensamento com algumas teses de Schopenhauer, no que diz respeito à teoria da repressão. A teoria da repressão sem dúvida alguma ocorreu-me
independentemente de qualquer outra fonte; não sei de nenhuma impressão
externa que me pudesse tê-la
sugerido, e por muito tempo imaginei que fosse inteiramente original, até que
Otto Rank (1911) nos mostrou um
trecho da obra de Schopenhauer O Mundo
como vontade e idéia na qual o
filósofo procura dar uma explicação da loucura. O que ele diz sobre a
aceitação da parte dolorosa da realidade coincide tão exatamente com o meu
conceito de repressão que, mais uma vez, devo a chance de fazer uma
descoberta ao fato de não ser uma pessoa muito lida. Entretanto, outros leram
o trecho e passaram por ele sem fazer essa descoberta...[35] Em Uma dificuldade no caminho da Psicanálise, encontramos mais uma alusão a Schopenhauer, desta vez mencionado como um verdadeiro precursor. Há filósofos famosos que podem ser citados como
precursores – acima de todos, o grande pensador Schopenhauer, cuja ‘Vontade’
inconsciente equivale aos instintos
mentais da Psicanálise. Foi esse mesmo pensador, ademais, que em
palavras de inesquecível impacto, advertiu a humanidade quanto à importância,
ainda tão subestimada pela espécie humana,
da sua ânsia sexual. A psicanálise tem apenas a vantagem de não ter
afirmado essas duas propostas tão
penosas para o narcisismo (...) sobre uma base abstrata, mas demonstrou-as em
questões que tocam pessoalmente cada
indivíduo e o forçam a assumir alguma atitude em relação a esses problemas.[36] Em Psicologia de grupo e análise do ego, Freud volta a citar um texto shopenhaueriano, que aqui, porém, não vem ao caso.[37] Resistências à Psicanálise, apesar de representar um ataque ferrenho aos filósofos e à filosofia em geral, volta a citar, quase como uma exceção, Schopenhauer e a sua contribuição para compreender a importância da vida sexual.[38] Aliás, o texto em questão foi introduzido na Standard Edition, justamente no volume XIX (pp. 249-250). A tudo isto corresponde o importante rôle que a relação dos sexos desempenha no mundo dos homens, onde ela é realmente o invisível ponto central de toda ação e conduta, e se deixa entrever em toda parte, apesar de todos os véus que lhe são lançados por cima. Ela é a causa da guerra e o fim da paz, a base do que é sano e o alvo da zombaria, a inexaurível fonte do espírito, a chave para todas as alusões e o significado de todas as insinuações misteriosas, de todas as ofertas não enunciadas e de todos os olhares furtivos, a meditação diária do jovem e, amiúde, também a do velho, o pensamento de todas as horas do libertino e, mesmo contra sua vontade, a imaginação constantemente recorrente do casto, o material sempre pronto para um chiste, devido exatamente à profunda seriedade que jaz em seus fundamentos. É, contudo, o elemento picante e o chiste da vida que a preocupação principal de todos os homens seja secretamente perseguida e ostensivamente ignorada, tanto quanto possível. Em realidade, porém, nós a vemos a todo momento sentar-se como verdadeira senhora hereditária do mundo, na plenitude de sua própria força, em seu trono ancestral, e desde lá, olhando para baixo com miradas desdenhosas, a rir dos preparativos que foram efetuados para amarrá-la, aprisioná-la ou, pelo menos, limitá-la, e, onde quer que possível, mantê-la oculta ou mesmo dominá-la de tal forma que apareça apenas como um interesse secundário, subordinado, da vida. Tudo isso, porém, concorda com o fato de a paixão sexual ser o ponto central da vontade de viver, e, conseqüentemente, a concentração de todo desejo; portanto, no texto chamei os órgãos genitais de foco da vontade. Em verdade, pode-se dizer que o homem é desejo sexual [Geschlectstrieb = instinto sexual, n. d. a.] concreto, pois sua origem é um ato de cópula e somente essa tendência perpetua e mantém unida toda a sua existência fenomênica. A vontade de viver manifesta-se primariamente, com efeito, como um esforço de sustentar o indivíduo; contudo, isso constitui apenas um passo para o esforço de sustentar a espécie, e o último esforço tem de ser mais poderoso em proporção, na medida em que a vida da espécie ultrapassou a do individuo em duração, extensão e valor. A paixão sexual, portanto, é a mais perfeita manifestação da vontade de viver, seu tipo mais distintamente expresso; e a origem do individuo nela e sua primazia sobre todos os outros desejos do homem natural estão em completo acordo com isso. É evidente a relação que este texto estabelece com os conceitos de libido, de repressão e de instinto de vida ou pulsão de vida. Um estudo autobiográfico volta a abordar a possível dependência das idéias da psicanálise da filosofia de Schopenhauer, negando-a. O alto grau em que a Psicanálise coincide com a
filosofia de Schopenhauer – ele não somente afirma o domínio das emoções e a
suprema importância da sexualidade,
mas também estava até mesmo cônscio do mecanismo da repressão – não deve ser
remetida à minha familiaridade com seus ensinamentos. Li Schopenhauer muito
tarde em minha vida. Nietzsche, outro filósofo cujas conjecturas e intuições
amiúde concordam, da forma mais surpreendente, com os laboriosos achados da
Psicanálise, por muito tempo foi evitado por mim, justamente por isso mesmo;
eu estava menos preocupado com a questão da prioridade do que em manter minha
mente desimpedida.[39] Para entender melhor em que sentido podemos verificar coincidências e diferenças entre o pensamento de Schopenhauer e aquele da Psicanálise, vamos apresentar uma breve síntese do pensamento do filósofo alemão.
A
filosofia da Vontade
Partindo da visão kantiana, que distingue entre mundo fenomênico (o que aparece e é captado pelo processo cognitivo) e noumênico (a coisa em si), Schopenhauer percebe o mundo como pura representação (Vorstellung), uma palavra, aliás, bastante significativa para a Psicanálise.[40] O mundo como representação (...) tem duas metades
essenciais, necessárias e inseparáveis. Uma é o objeto; suas formas são o
espaço e o tempo, donde a pluralidade. A outra metade é o sujeito; não se
encontra colocada no tempo e no espaço, porque existe inteira e indivisa em
todo ser que percebe.[41] Esta primeira colocação está de certa forma relacionada à maneira como a Psicanálise aborda o conceito de natureza e de lei natural. Ao conceber uma separação entre o mundo fenomênico e noumênico, a filosofia kantiana estabelece também a impossibilidade de reportar a lei natural a um princípio metafísico universal e necessário. O que é natural em si permanece obscuro para o ser humano. Os conceitos de natural, normal, moral, ético, portanto seriam de origem cultural, ou seja, seriam estabelecidos no âmbito fenomênico e representariam a maneira como o ser humano concebe o mundo, sem que haja nenhuma relação com aquilo que o mundo é em si. Schopenhauer, contudo, se distancia da visão kantiana, ao admitir a possibilidade de se abordar à coisa em si, o fundamento metafísico da realidade, que para ele é a Vontade. Aquilo que é denominado coisa em si na filosofia
de Kant (...) nada mais é do que a vontade[42] A Vontade schopenhaueriana é um querer irracional e inconsciente, fonte de sofrimento. Neste contexto o prazer é apenas um momento fugaz. Schopenhauer introduz assim o conceito de inconsciente, numa perspectiva realmente muito próxima àquela da Psicanálise, embora o Id aqui seja concebido em chave metafísica. A consciência é a mera superfície de nossa mente,
da qual, como da terra, não conhecemos o interior, mas apenas a crosta[43] Na realidade, quando Freud aproxima os processos inconscientes do psiquismo humano ao dinamismo biológico dos organismos celulares, acaba se aproximando desta visão metafísica de Schopenhauer, ao afirmar indiretamente que o psiquismo reproduz em si o modus essendi de todas as coisas. Um texto particularmente interessante é aquele em que Schopenhauer fala sobre a loucura. Uma visão da essência da loucura, um conceito
preciso e nítido do que diferencia propriamente o louco do homem são, a meu
saber ainda não se encontrou. (...) Sua doença me parece atingir em especial
a memória (...), sendo impossível qualquer recordação uniformemente
conexa. (...) Sempre mais se confunde
em sua memória o verdadeiro com o falso. Embora a realidade imediata seja
percebida com exatidão, ela é falsificada pela conexão simulada com um
passado imaginário.(...) Atingindo a loucura um grau elevado, se produz uma
total ausência de memória. (... ) O conhecimento do louco possui em comum com
o do animal o serem ambos limitados ao presente.[44] Para Schopenhauer o que freqüentemente origina a loucura é o padecimento espiritual intenso. Neste caso, a natureza recorreria à loucura como o último meio de salvação da vida: o espírito atormentado romperia assim o fio de sua memória. Esta visão da loucura tem alguma conexão com a maneira como Freud concebe a psicose num texto de 1924. (...) Uma das características que diferenciam a
neurose de uma psicose [é] o fato de em uma neurose o ego, em sua dependência
da realidade, suprimir um fragmento do Id (vida instintual), ao passo que, em
uma psicose esse mesmo ego, a serviço do Id, se afasta de um fragmento de
realidade.[45] Mais adiante Freud acrescenta: Em uma psicose, a transformação da realidade é
executada sobre os precipitados psíquicos de antigas relações com ela – isto
é, sobre os traços da memória, as idéias e os julgamentos anteriormente
derivados da realidade e através dos quais a realidade foi representada na
mente. (...) A psicose também depara com a tarefa de conseguir para si
própria percepções de um tipo que corresponda à nova realidade , e isso muito
radicalmente se efetua através da alucinação.[46] Também a teoria pulsional freudiana encontra em Schopenhauer um correspondente. Todo querer
se origina da necessidade, portanto da carência, do sofrimento [poderíamos
dizer do desprazer, n. d. a.]. A satisfação lhe põe um termo; mas para cada
desejo satisfeito, dez permanecem irrealizados. (...) Por isso, enquanto nossa consciência é preenchida pela
nossa vontade, enquanto submetidos à pressão dos desejos (...) não
possuiremos bem-estar nem repouso permanente.[47] Mas logo depois ele se afasta da visão freudiana, ao falar sobre a contemplação pura da Idéia, como maneira de fugir da pressão que a vontade exerce sobre nossa vida, tornando-a infeliz. Contudo, quando um estímulo exterior, ou uma
disposição interior, nos arranca da torrente infinita do querer, libertando o
conhecimento do serviço da vontade [leia-se libido, n. d. a.], a atenção não
é mais dirigida para os motivos do querer, compreendendo as coisas livres de
sua relação com a vontade, examinando-as sem interesse, sem subjetividade, de
modo estritamente objetivo, abandonando-se a elas enquanto representações e
não enquanto motivos; então se apresenta de um golpe aquele repouso, que
tanto se buscou (...) instituindo um bem-estar total. (...) Pois estamos a
todo momento livres do impertinente jugo da vontade....[48] O que Schopenhauer não percebe e que a Psicanálise vai deixar claro é que também neste caso há uma busca de prazer, devida ao fato que todo processo racional tem sua origem nas pulsões libidinais, que se expressam através dos mecanismos da racionalização e da sublimação. A visão filosófica de Schopenhauer é basicamente pessimista, ao ponto dele chegar a falar em negatividade do bem-estar e da felicidade, em oposição à positividade da dor. Não conheço absurdidade maior do que a maioria dos
sistemas metafísicos que declaram o mal como algo negativo; enquanto
constitui justamente o positivo, o que em si mesmo se torna sensível; pelo
contrário o bem, i. e., toda felicidade e satisfação, constitui o negativo,
ou seja, a simples supressão do desejo e a eliminação de um tormento.[49] (...) Já viemos ao mundo dotados de culpa, (...) continuamente devemos expiar essa
culpa, [por isso] nossa existência se torna tão miserável e tem como fim a
morte.[50] O caráter das coisas deste mundo, (...) não é
tanto, como se afirma com freqüência, imperfeição, como distorção (...). Um
indivíduo humano (...) constitui algo que não deveria ser, algo pecaminoso,
errado, aquilo que se compreende sob o pecado original, aquilo por que ele
está condenado à morte.[51] Embora a visão freudiana não seja exatamente otimista, podemos associá-la a este pessimismo radical? Na conferência 32, em Novas conferências introdutórias sobre Psicanálise, ao abordar a autodestrutividade, Freud volta a falar sobre as características conservadoras dos instintos, e relaciona a autodestrutividade ao instinto de morte, presente no processo vital, cuja ação é concorrente e antagônica aos instintos eróticos ou instintos de vida. Mais uma vez, Freud reconhece neste texto a genialidade das intuições schopenhauerianas, mas também toma posição em favor da pesquisa psicanalítica e alega que sua posição não coincide plenamente com aquela de Schopenhauer. E mais, o que estamos dizendo não é nem mesmo Schopenhauer autêntico. Não estamos afirmando que a morte é o único objetivo da vida, não estamos desprezando o fato que existe vida, assim como existe morte. Reconhecemos dois instintos básicos, e atribuímos a cada um deles a sua finalidade.[52]
Conclusão
Nota-se, nos textos de Schopenhauer, uma tendência a integrar alguns valores da visão budista e do próprio ascetismo cristão, quando aponta para a possibilidade de uma fuga das leis escravizantes da vontade, numa atitude de afastamento do mundo, em busca de um estado de contemplação pura, que se assemelha ao Nirvana preconizado pelas filosofias orientais. Neste ponto, evidentemente, estamos longe da teoria freudiana, pela qual não há como fugir do sistema pulsional. Isto nos levaria a pensar que a visão do homem freudiana é ainda mais pessimista do que aquela de Schopenhauer, pois não deixa escapatórias, ainda mais que uma das pulsões que dominam o ser humano é a pulsão de morte. Mais uma vez quero me reportar ao texto de Mezan.[53] Na sua conclusão ele mostra com bastante clareza em que sentido podemos considerar Freud não somente o pai da Psicanálise, mas também um dos grandes pensadores do nosso século em termos filosófico. O papel de Freud seria justamente, assim como aquele dos filósofos existencialistas, mostrar a dimensão dramática do existir humano. Com Freud a Consciência, a grande protagonista da filosofia do XIX século, perde a sua centralidade. O homem freudiano é um ser dividido. O conceito de inconsciente abre uma cisão insanável na condição humana. Com o inconsciente instaura-se no ser humano um conflito inelutável, que tem na sua base o Desejo. Um desejo, que, como dizia Schopenhauer, é insaciável... A função da terapia, conclui Mezan é “uma educação para a realidade”. O homem é chamado a superar a ilusão de poder possuir o Objeto. Abre-se aqui uma série de desafios, que como explica Mezan nos confrontam com a cultura, a religião, a ideologia e a própria Filosofia, se esta for concebida com pretensão de possuir o Real. Neste sentido a “Filosofia” freudiana, não é pessimista, e sim profundamente realista. Viver torna-se assim um desafio que supõe saber “conviver”, como diria Heidegger, com a situação dramática do dasein, cuja “essência” é ser para a morte. Sartre aponta em seus escritos que viver é uma situação dramática, pelo fato do ser humano ser “condenado” a ser livre e a escolher. Ambos reconhecem e assumem a cisão que Freud introduziu de forma tão magistral.
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