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© Roberto Girola (Junho 2000) O conceito de self na Psicologia Analítica de Jung[7] O conceito de self na Psicanálise A doença do self, um desafio para a atual clínica psicanalítica A emergência do self na perspectiva psicanalítica de Winnicott Potencial criativo e elemento feminino na constituição do self Novidade da teoria de Winnicott
IntroduçãoO objetivo deste trabalho é focalizar algumas abordagens
do conceito de self (ou si-mesmo)
e, a partir de uma análise sucinta dos desafios que a formação do self enfrenta hoje, compará-las com a
perspectiva da psicanálise winnicottiana.
Gostaria de iniciar com um rápido panorama que nos permita identificar
diferentes conotações da noção de self,
para depois ver em que sentido o self
do homem contemporâneo é ameaçado e finalmente analisar a contribuição da
abordagem de Winnicott, em sua especificidade. Do ponto de vista filosófico, o conceito de self está de alguma forma relacionado ao
conceito de identidade. Charles Taylor traça no livro As fontes do
self um panorama abrangente sobre as raízes que levam à construção da
identidade moderna. Não caberia na
limitação deste trabalho uma análise detalhada desta obra.[1] No entanto,
parece-me interessante levantar, a partir das considerações deste autor, um
elemento que tem sido considerado por muito tempo como fundante na constituição
da identidade humana e que é hoje posto em discussão no contexto cultural
contemporâneo. Refiro-me à crise das metanarrativas, para usar uma terminologia
empregada pela corrente pós-moderna. Por trás desta crise encontramos uma
postura que tende a negar a possibilidade de uma fundamentação da ética no
sentido clássico e, portanto, um questionamento sobre a possibilidade de se
estabelecer um fundamento para a própria identidade humana. Como observa Taylor, surge uma desconfiança
em relação aos grandes ideais, advinda da constatação foucaultiana de que
elevados ideais éticos e espirituais costumam entrelaçar-se com exclusões e
relações de dominação. Tais narrativas são importantes, pois representam um
ponto de referência sobre o qual, por muito tempo, se moldaram as
representações ligadas à identidade do homem (sobretudo no Ocidente). O autor
constata que foi justamente a sensação de que os hiperbens (ideais
supremos) podem sufocar-nos ou oprimir-nos, que levou à revolta naturalista
contra a religião e a moralidade tradicionais, pondo assim em crise elementos
que por muitos séculos foram considerados como fundantes para a identidade
humana. Se for verdade que “os mais
elevados ideais e aspirações espirituais também ameaçam impor as cargas mais
esmagadoras à humanidade”,[2]
podemos perguntar em que sentido esses cálices envenenados - para usar uma expressão do próprio
Taylor - poderiam contribuir, de fora para dentro, para a constituição do self. Ou será que o self só pode ser construído de dentro para fora? Neste caso, como
acontece essa construção? Ainda, o self
é uma criação essencialmente individual ou esta criação responde de alguma
forma, a um roteiro pré-definido, a uma ordem universal de essências? E,
poderíamos acrescentar, o self tem
algo a ver com o caráter, com a personalidade moral de uma pessoa? Vamos por
enquanto deixar em suspenso essas questões, para retomá-las no fim do nosso
trabalho. Em Hegel, o conceito de self se funde com aquele de autoconsciência: “a
consciência primeiro encontra a si
mesma na autoconsciência (...) seu ponto crítico, onde ela deixa o espetáculo
colorido do imediato sensível, sai do vazio escuro do supra-sensível
transcendente e remoto, e entra para a luz diurna espiritual do presente” (Fenomenologia
do Espírito).[3]
Para William James o self se
desdobra, sendo em parte objeto e em parte sujeito: “o meu self total, como se fosse duplo, em parte conhecido e em parte
cognoscente [sic], deverá ter dois aspectos distintos que (...) podemos chamar
um mim (me) e o outro eu (I)” (Compêndio de Psicologia).[4]
Estas primeiras definições nos mostram o self
como a função psíquica que permite ao indivíduo de se dobrar sobre si mesmo, favorecendo
a consciência de si mesmo, um conceito que, embora não seja usado aqui no
sentido estritamente freudiano, de certa maneira, pode ser aproximado ao
conceito de ego. Norbert Wiley apresenta no seu livro O self semiótico, uma concepção mais sofisticada.[5]
Desenvolvendo conceitos já abordados por C. S. Peirce e G. H. Mead, ele chega à
conclusão que o self combina “as tríades temporal, semiótica e
dialógica”. Isto quer dizer que o self,
no plano dialógico, se desdobra num eu que dialoga consigo mesmo
(você), e que tem como referência um mim. No plano temporal,
o self representa uma mediação em que
essas três conotações se relacionam respectivamente no presente, no futuro
e no passado. No plano interpretativo, o self se desdobra no signo, no intérprete e no objeto,
três dimensões semióticas que se relacionam (respectivamente) com as outras. Os seres humanos são uma tríade de tríades e, além disso, as três se fundem em uma só. Enquanto fundidas, irei referir-me a elas, de uma maneira dialógica abreviada, como eu, você, mim, embora os nomes mais precisos sejam eu-presente-signo, você-futuro-intérprete e mim-passado-objeto. Os seres humanos não são nenhum dos três (ou nove). São os três juntos, incluindo tanto os elementos como as relações entre esses elementos. Os homens consistem em presente, futuro e passado; signo, intérprete e objeto; eu, você, mim; e todas as sobreposições, e capacidade de conexão, e solidariedade entre esses elementos.[6] Citei este autor porque introduz o conceito de self que atua como elemento que integra
várias instâncias do ser humano. No plano da estrutura temporal humana, ele
integra o passado o presente e o futuro, uma dimensão particularmente
interessante para as considerações que serão feitas a seguir. Da mesma forma, a
introdução do self como estrutura
semiótica é interessante porque projeta as atividades do self no campo simbólico, um campo que, como sabemos, é importante
para a Psicanálise. Por sua vez, a estrutura dialógica do self, introduz um diálogo interno entre diferentes instâncias da
psique. Isto não somente permite o desdobramento do eu sobre si mesmo, mas
também introduz uma instância do eu, o mim, que garante a continuidade
objetiva, representando, em sua rigidez de objeto, um referencial quase
superegóico, para usar uma terminologia psicanalítica.
O conceito de self na Psicologia Analítica de Jung[7] Na Psicologia Analítica o termo indica o conjunto dos
fenômenos psíquicos de um indivíduo. Por um lado o self integra os
objetos da experiência, percebidos pela consciência, com os fatores que ainda
permanecem inconscientes. Jung, no decorrer de sua obra, dá várias definições
de self. Pieri as agrupa em onze categorias.[8]
O conceito de self na Psicanálise Em Freud a palavra self
(das Ich) é usada com conotações diferentes, como observa o tradutor da
versão inglesa das obras de Freud. “Parece possível detectar dois empregos
principais: um em que o termo distingue o eu (self) de uma pessoa
como um todo (incluindo, talvez, o seu corpo) das outras pessoas, e outro
em que denota uma parte específica da mente, caracterizada por atributos
e funções especiais (o grifo é meu). Foi neste segundo sentido que ele
foi utilizado na elaborada descrição do ‘ego’ no primitivo ‘Projeto’ de Freud,
de 1895 (Freud, 1950a, Parte I, Seção 14), e é neste mesmo sentido que é
empregado na anatomia da mente, em O Ego e o Id. Em algumas de suas
obras intervenientes, particularmente em vinculação ao narcisismo, o ‘ego’
parece corresponder sobretudo ao ‘eu’ (self). Nem sempre é fácil,
contudo, traçar uma linha entre esses dois sentidos da palavra”. [10] Na teoria psicanalítica, somente mais recentemente o
conceito de self foi adquirindo uma
conotação mais definida.[11]
Kohut resume estes avanços no prefácio do seu livro Análise do self. Um
avanço aparentemente simples, mas pioneiro e decisivo, na metapsicologia
psicanalítica, a separação conceitual entre self
e ego (Hartmann); o interesse na aquisição e na manutenção de uma ‘identidade’,
bem como nos perigos aos quais este conteúdo mental (pré-)consciente é exposto
(Erikson); a gradual cristalização de uma existência psicobiológica separada,
fora da matriz da união de mãe e criança (Mahler); e algumas detalhadas e
importantes contribuições clínico-teóricas (Jacobson) e clínicas (A. Reich)
formuladas psicanaliticamente nos últimos anos – todo esse trabalho atesta o
crescente interesse dos psicanalistas por um assunto que tendia a ser lançado
para o segundo plano pelo farto material que contribuiu para a investigação do
mundo dos objetos, isto é, para as vicissitudes dinâmicas e evolutivas das
imagos, ou (...) das representações dos objetos.[12] Para
Kohut, as noções de self, ego, id, superego, personalidade e identidade refletem
conotações conceituais diversificadas.[13] Ego, id e superego
representam, na linguagem psicanalítica, uma conceituação abstrata do aparelho
psíquico, portanto uma noção distante da experiência. Já o self representa uma abstração mais próxima à experiência, pois se
trata de “uma estrutura dentro da mente”, catexizada com energia instintiva e
com continuidade no tempo.[14] Para este autor, “representações do self estão presentes não somente no id,
no ego e no superego, mas também dentro de uma única instância da mente”.[15]
Neste sentido, podem existir, lado a lado, representações contraditórias do self. “O self, assim, bastante análogo às representações de objetos, é um
conteúdo do aparelho mental, mas não é um dos seus constituintes, isto é não é
uma das instâncias da mente”.[16]
Não fica claro, contudo, como o self,
sem ser um constituinte do aparelho mental possa se tornar um organizador
das atividades mentais, como o autor afirma mais adiante.[17]
Ao self são atribuídas as representações de si. Como observam Gedo e Goldberg,[18] trata-se de uma organização psíquica permanente que exerce uma influência dinâmica sobre o comportamento, como já foi pontuado por Kohut. Tais representações constituem um sistema de lembranças que não podem ser confundidas apenas com simples conteúdos mentais, e também não são simples percepções registradas na memória (relação com o passado), mas, “em virtude de seus duráveis efeitos dinâmicos”, devem ser compreendidas como uma realidade concreta, a personalidade organizada como um todo.[19] A noção de self, portanto não pode ser confundida em Psicanálise com a noção de ego, que é um conceito estrutural do aparato psíquico ligado à segunda tópica freudiana, cuja função é mediar as exigências do id, do superego e da realidade.[20]
Em sua análise sobre os fenômenos culturais e estéticos
que caracterizam a “condição pós-moderna”, David Harvey,[21] observa que eles
dependem da maneira mutável como tempo e espaço são percebidos, no fluxo da
experiência humana. Levando em conta que esta é uma dimensão que se relaciona a
uma função importante do self, como
foi observado acima, parece-me importante analisar mais de perto as observações
deste autor. O que caracteriza a nossa época, na opinião de Harvey, é uma compressão
da noção de tempo-espaço, que ele relaciona com a tendência à
superacumulação de bens e a uma aceleração do consumo iniciada no final dos
anos 60. Para o homem contemporâneo, em poucas décadas, o tempo se encurtou e o
espaço se estreitou. Ao lado de uma crescente concentração financeira, ocorreu uma
descentralização dos centros de produção, acompanhada por uma nova concepção
que tende a reduzir os tempos de giro em vários setores da produção.[22]
Tudo isso levou a “uma intensificação dos processos de trabalho e uma
aceleração na desqualificação e requalificação necessárias ao atendimento das
novas necessidades do trabalho”.[23]
Paralelamente, a aceleração na produção levou à aceleração na troca e no
consumo de bens, aumentando consideravelmente a velocidade de circulação das
mercadorias. Tudo hoje tende a acontecer on-line, as distâncias se
encurtaram, os tempos se reduzem cada vez mais. Por outro lado, observa Harvey, esta aceleração
influencia de maneira determinante a maneira de pensar, ser e agir do homem
contemporâneo. “A primeira conseqüência importante foi acentuar a volatilidade
e efemeridade de modas, produtos, técnicas de produção, processos de trabalho,
idéias e ideologias, valores e práticas estabelecidas”. Um primeiro sentimento,
portanto, invade o homem moderno, a difusa sensação de que tudo é volátil,
efêmero e, pior ainda, descartável. Esta sensação é ainda mais intensa se
observarmos o mercado financeiro, cada vez mais dominado por capitais fictícios
numa ciranda que resiste ao discurso onipotente dos economistas e traz cada vez
mais à tona uma sensação de profunda aleatoriedade sobre a qual parece repousar
a economia mundial. Harvey dedica a esta análise o último capítulo de seu
livro, cujas conclusões não vêm ao caso. Ligado a este fenômeno, observa Harvey, temos, por outro lado,
a manipulação do gosto e da opinião, numa verdadeira manipulação do desejo,
acompanhada por uma aceleração na produção dos signos, que alimenta a
insaciável indústria cultural.[24]
Como já examinei com mais profundidade num outro trabalho,[25] ao lado da inflação
de signos, temos um esvaziamento de significados, pois o símbolo tem cada vez
menos a função de remeter a um significado e passa a ter muito mais um foco em
si mesmo, adquirindo valor de simulacro e impondo, aos poucos, uma verdadeira
ditadura do significante e uma sensação geral de vazio.[26] Trata-se de uma
situação que, como aponta Jameson, se refazendo ao conceito lacaniano de
esquizofrenia como desordem lingüística, representa uma “esquizofrenia na forma
de um agregado de significantes distintos e não relacionados entre si”.[27]
Seus efeitos psíquicos são desastrosos, pois, se a identidade pessoal supõe
“uma unificação temporal do passado e do futuro com o presente que tenho diante
de mim”, o esvaziamento do discurso remete a uma incapacidade de “unificar
o passado, o presente e o futuro da
nossa própria experiência biográfica ou vida psíquica”.[28] Com o colapso da
cadeia significativa, a experiência se reduz a “uma série de presentes puros,
não relacionados no tempo”.[29]
Como observam Deleuze e Guattary, “nossa sociedade produz esquizofrênicos da
mesma forma como produz o xampu Prell ou os carros Ford, com a única diferença
de que os esquizofrênicos não são vendáveis”.[30] As novas Tecnologias da Informação (TI), por sua vez,
trouxeram um cenário completamente novo, fascinante e ameaçador. Numa recente
entrevista concedida à revista Veja, o psicólogo americano Larry Rosen,
considerado um especialista no estudo da relação do homem com a tecnologia, faz
algumas considerações interessantes.[31] Ele observa: que
nunca as pessoas tiveram acesso a tanta informação. De acordo com as
estatísticas, o volume de informações disponíveis dobra a cada 72 dias. Tudo
isso gera uma situação de estresse. De certa forma, as observações de Rosen
remetem à compressão da noção de tempo-espaço de Harvey, quando observa
que a velocidade da tecnologia está alterando a nossa percepção do tempo e nos leva a viver num constante estado de
alerta, que gera ansiedade e nervosismo, uma situação psíquica que ele caracteriza
como tecnostress. De acordo com Rosen, os limites entre trabalho e lazer
tornam-se cada vez menos claros. Ocorre, eu diria, uma quebra de barreira entre
interioridade e exterioridade. Os objetos do mundo externo são percebidos cada
vez mais como invasivos. Ao mesmo tempo, o homem moderno torna-se cada vez mais
dependente da tecnologia, gerando uma situação neurótica, que Rosen chama de tecnose.
A doença do self, um desafio para a atual clínica psicanalítica Na linha psicanalítica, Gilberto Safra faz uma
interessante análise das repercussões da cultura contemporânea sobre o
psiquismo.[32]
Para este autor, o mundo atual apresenta problemas e situações que levam o ser
humano a adoecer em sua possibilidade de ser, levando-o a viver fragmentado,
descentrado de si mesmo, impossibilitado de encontrar, na cultura, os elementos
e o amparo necessários para superar suas dificuldades psíquicas. De acordo com
sua experiência clínica, no consultório as queixas mais freqüentes seriam
referidas “à vivência de futilidade, de falta de sentido na vida, de vazio
existencial, de morte em vida”.[33]
Para uma psicanálise acostumada à escuta do desejo, que aflora nos sonhos e se
faz presente nos sintomas e no discurso, através dos mecanismos de recalque,
deslocamento e condensação, surge um novo desafio: pacientes que nem mesmo se
constituíram em sua possibilidade de desejar. Com tais pacientes, observa
Safra, e necessário “constituir os aspectos fundamentais do seu self, que até então ficaram sem
realização”.[34]
E continua: “Mais do que um processo de deci-framento [sic] das produções do
paciente, há uma apresentação do self em gesto e em formas imagéticas
(formas sensoriais) [em nota o autor esclarece tratar-se de imagens sonoras,
visuais, gustativas, tácteis] sustentados pela relação transferencial, na qual
o indivíduo se constitui e se significa frente ao outro”.[35] Como observa
Safra, percebe-se em tais pacientas uma “fome de amor”, de uma experiência do si-mesmo
que possibilite o surgir da subjetividade humana. Como veremos a seguir, Winnicott, ao analisar o
desenvolvimento primitivo do bebê, considera fundamental o encontro entre o
mundo interno do bebê e o mundo externo, mediado pela figura materna, num
contexto que ele denomina de ilusão. O fenômeno da ilusão faz com que a
criatividade originária do bebê (ou do paciente) coincida com a percepção
objetiva, num encontro entre objeto da realidade e objeto subjetivo.
Safra denomina esta experiência como uma situação de qualidade estética,
através da qual “o indivíduo cria umas formas imagéticas, sensoriais, que
veiculam sensações de agrado, encanto, temor, horror, etc...”.[36]
Na presença de um outro significativo (figura materna ou analista), essa
experiência faz com que o self se constitua, permitindo que a pessoa possa
existir no mundo. Para que o eu possa se constituir e se tornar apto ao
encontro com o não-eu (mundo externo), é necessária a mediação de uma
mãe suficientemente boa, capaz de oferecer o mundo externo ao bebê, na medida
em que o bebê se torna capaz de contê-lo, ou melhor, para usarmos a
terminologia winnicottiana, de criá-lo.
A emergência do self na perspectiva psicanalítica de Winnicott
O bebê nasce, na concepção winnicottiana, com uma estrutura sélfica que é pura potencialidade, uma tendência à integração, mas para que essa tendência se realize é fundamental a presença de um ambiente favorável.[37] Em “Desenvolvimento emocional primitivo” (1945), Winnicott se pergunta em que época começam a ocorrer coisas importantes para a formação do bebê. Embora não descarte a possibilidade que existam fatores importantes desde a concepção do bebê, ele acredita que, de fato, podemos inferir a primeira experiência importante somente a partir do nascimento, considerando as diferenças existentes entre bebês prematuros e bebês pós-maduros. É “ao final dos nove meses de gestação, [que] o bebê se torna maduro para o desenvolvimento emocional”.[38] O desenvolvimento primitivo do bebê, na fase inicial, até os cinco meses, “é vitalmente importante: (...) aí se encontra o esclarecimento na psicopatologia da psicose”.[39
Inicialmente, o ser humano
parte de um estado de não integração (no integration): não conhece o
ambiente, não tem noção de tempo e espaço e não tem a noção do eu.[40]
Trata-se de uma “capacidade inata que todo ser humano tem de se tornar
não-integrado, despersonalizado e de sentir que o mundo é irreal”.[41]
Nesta fase, corpo e psique ainda não se integraram, o corpo é percebido como
externo.[42]
A não-integração produz uma série de fenômenos de dissociação, que, no bebê, são
absolutamente normais, fazendo com que ele não identifique uma continuidade
entre o bebê que dorme e o bebê acordado, entre a mãe que cuida e mãe, cujo
poder, que está por trás dos seios, ele quer destruir.[43] A tendência a se
integrar é ajudada por dois conjuntos de experiências: os cuidados maternos,
que se concretizam nas experiências que envolvem a manipulação do bebê (handling)
e a sua sustentação/contenção (holding), e também nas “experiências
pulsionais agudas, que tendem a tornar a personalidade uma a partir do
interior”.[44]
Para Winnicott, a psique individual só pode ter início num determinado setting,
a partir do qual o indivíduo pode criar um meio ambiente pessoal, que,
sucessivamente, se tudo correr bem, se transforma em algo semelhante ao meio ambiente
percebido e, desta forma, o indivíduo passa da dependência à independência.[45]
Nesta fase, se o meio-ambiente for invasivo, ou seja, se não houver uma
adaptação ativa do meio às necessidades da criança, ocorre “uma distorção
psicótica da organização meio-ambiente indivíduo” e uma perda de sentido de self,
que só é recuperado por um retorno ao isolamento.[46] Naturalmente, para
que se instaure uma organização defensiva como repúdio à invasão ambiental, é
necessária uma seqüência de experiências percebidas pelo bebê como invasivas.
No caso do processo de adaptação ser bem sucedido, observa Winnicott, o bebê
começa a ter alguma noção de tempo, por começar a lidar com experiências em que
o ambiente externo é experimentado de forma processual, numa seqüência de
eventos.[47]
Gostaria de esclarecer que, no decorrer de nosso estudo, vamos falar
freqüentemente de cuidados maternos e de mãe; Winnicott acredita de fato que a
figura materna (ou de alguém que a represente de forma estável e consistente)
seja fundamental nesse processo, cabendo ao pai a função de garantir a
qualidade do setting que envolve inclusive a mãe. Acredito, contudo, que
o cuidado materno possa incluir os cuidados do pai, exercendo neste caso a
função materna. Desde que se trate de uma experiência agradável não invasiva para o bebê, nada muda com
relação à teoria de Winnicott, embora ele observe que o processo “fica
imensamente simplificado, se apenas uma pessoa cuida do bebê, usando apenas uma
técnica” (cf. “Desenvolvimento emocional primitivo”, p. 279).
Potencial criativo e elemento feminino na constituição do self Na teoria winnicottiana fruto de longos anos de consultório e de contato com pacientes adultos e crianças, inclusive psicóticos, alguns conceitos adquirem particular importância no processo de formação do self. Trata-se das noções de primeira mamata teórica, criatividade, elemento feminino e elemento masculino, experiência da ilusão e objeto transicional. Gostaria de abordar de maneira resumida esses conceitos para compreender como eles se articulam na formação do self.
A primeira alimentação teórica e a experiência da ilusão A primeira alimentação teórica é uma experiência que surge a partir de uma necessidade do bebê (Winnicott prefere usar o termo necessidade ao termo impulso), que gera nele um estado de prontidão, ligado à sua criatividade primária, predispondo-o à alucinação. Uma mãe devotada,[48] a partir de seu amor e de sua profunda identificação com o bebê (e isto é favorecido por um setting adequado), ao fornecer algo que o bebê espera, na hora certa, favorece a experiência da ilusão. A mãe, portanto, exerce a tarefa de proteger o bebê em relação ao mundo externo, fornecendo “o pedacinho simplificado de mundo que a criança, através dela, passa a conhecer”.[49] O momento da ilusão é “uma experiência que o bebê pode tomar, ou como alucinação sua, ou como algo que pertence á realidade externa”.[50] No estado mais primitivo, “o objeto se comporta de acordo com as leis mágicas, isto é, existe quando é desejado” e desaparece quando não é desejado. Podemos dizer, portanto, que tudo o que é objetivamente percebido foi antes subjetivamente concebido no espaço da ilusão.[51] Trata-se de um paradoxo, o bebê cria o objeto, mas este não teria sido criado como tal se já não se encontrasse ali, graças a uma provisão ambiental suficientemente boa. Para entendermos o que isto significa, é necessário aprofundar o conceito de criatividade. Criatividade, elementos masculinos e elementos femininos, importância do brincar A criatividade, na perspectiva winnicottiana, está
relacionada “com a abordagem do indivíduo à realidade externa” e é definida
pelo ingresso criativo do indivíduo na vida, ligado à primeira abordagem
criativa dos objetos externos.[52]
Podemos portanto falar de uma criatividade primária, cujo desenvolvimento
depende do meio-ambiente. Winnicott estabelece uma diferença nas relações de
objeto, caracterizada por um relacionamento que transita entre os elementos
masculinos e femininos, entre o relacionamento ativo e o relacionamento
passivo. Isto vai nos ajudar a perceber
em que sentido é fundamental para o desenvolvimento do self a
experiência da criatividade originária. Na sua relação com o seio materno, o
bebê transita entre duas experiências, uma ligada ao impulso instintivo que o
leva a satisfazer sua necessidade, e outra ligada ao próprio seio, que
possibilita ao bebê de “tornar-se o próprio seio (ou a mãe), no sentido que o
objeto é o sujeito”.[53]
A criatividade é exercida no âmbito dos elementos femininos, na criação do objeto
subjetivo, que é o objeto que ainda não foi repudiado como um fenômeno não-eu. Aqui,
nesse relacionamento do elemento feminino puro com o ‘seio’, encontra-se uma
aplicação prática do objeto subjetivo, e a experiência a esse respeito abre
caminho para o sujeito objetivo [o grifo é meu], isto é, a idéia de um
eu (self) e a sensação de real que se origina do sentimento de possuir
uma identidade.[54] Portanto o sentimento de eu, o self, cresce
somente na medida em que é experimentado um relacionamento baseado no
sentimento de ser, baseado numa identificação primária em que objeto e sujeito
são um. “Tanto a identificação projetiva quanto a introjetiva originam-se dessa
área em que cada um é o mesmo que o outro” e é a partir dessa relação de objeto
do elemento feminino puro que se estabelece a experiência de ser. [55]
“Em contraste, a relação de objeto do elemento masculino com o objeto pressupõe
uma separação” que marca o surgir do objeto não-eu, do objeto
objetivado, uma relação que já supõe uma organização mental mais estruturada.[56]
A relação de objeto baseada no elemento feminino é focalizada no ser, aquela baseada no elemento
masculino, no fazer. Evidentemente, nesta perspectiva, os elementos
masculinos e femininos estão presentes tanto nos homens como nas mulheres.
Evidentemente, uma mãe ansiosa, preocupada em “fazer” suas obrigações maternas,
corre o risco de não possibilitar ao bebê esse encontro com o próprio ser, que
o constitui como self. Na experiência da criatividade e na constituição do self,
adquire particular importância o brincar. De fato é no brincar que o indivíduo
pode ser criativo e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self).[57]
Neste sentido, Winnicott exclui que o self possa ser encontrado de outra
forma. O
eu (self) realmente não pode ser encontrado no que é construído com
produtos do corpo ou da mente, por valiosas que essas construções possam ser em
termos de beleza, perícia e impacto. Se o
artista, através de qualquer forma de expressão está buscando o eu (self),
então pode-se dizer que, com todas a [sic] probabilidade, já existe um certo
fracasso para esse artista no campo do viver criativo. A criação acabada nunca
remedia a falta subjacente do sentimento do eu (self).[58]
Para Winnicott a experiência do brincar não pertence só à
criança, mas está ligada a qualquer atividade em que a criatividade primaria
busca expressão, inclusive na análise. (...)
o brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde; o brincar produz os
relacionamentos grupais; o brincar pode ser uma forma de comunicação na
psicoterapia; finalmente a psicanálise foi desenvolvida como uma forma
altamente especializada de brincar, a serviço da comunicação consigo mesmo e
com os outros. [59] Para que o brincar aconteça é necessário um espaço
potencial entre o bebê e a mãe (ou o paciente e o analista), um espaço que
se situa entre o mundo interno e o mundo externo;[60] somente neste
espaço é possível experimentar a amorfia, uma experiência que remete “a um
estado não-intencional, uma espécie de tiquetaquear (...) da personalidade não
integrada”.[61]
No brincar, o mundo pode ser construído e destruído, pois envolve o mundo
interno e externo e os funde. Mais uma
vez, contudo, é necessária a experiência de um meio-ambiente adequado, suficientemente
bom, para que possa acontecer uma forma de comunicação criativa que constitui a
experiência do self.[62] Espaço potencial e objetos transicionais É no espaço potencial da ilusão que se articulam as
experiências com os objetos transicionais. O objeto transicional situa-se numa
área intermediária de experimentação entre o objeto subjetivo e aquilo que é
objetivamente percebido.[63]
Não é raro perceber a importância desses objetos transicionais (um ursinho de
pelúcia, uma fraldinha, um cobertor, etc.) nos primeiros anos de vida da
criança. De acordo com as observações de Winnicott, o padrão dos
fenômenos transicionais começa a surgir dos quatro aos doze meses de idade.
Este padrão, estabelecido na tenra infância, pode persistir no decorrer da
infância, de maneira que a criança continua a precisar de um determinado objeto
(geralmente macio), para acalmar sua ansiedade. Aos poucos, na medida em que o
bebê começa a dominar os sons, esse objeto adquire um “nome”, freqüentemente
significativo, pois está de alguma forma relacionado ao mundo adulto. No
entanto, Winnicott alerta que, em determinados casos, pode não existir um
objeto transicional à exceção da própria mãe.[64] O objeto transicional é importante porque representa, na mente
da criança, o objeto da primeira relação (geralmente o seio materno). A relação
com esse objeto é uma fase intermediária, que precede o teste da realidade,
pois nela, o bebê passa do controle onipotente (mágico) do objeto subjetivo
para uma forma de controle que envolve a manipulação. O objeto transicional
supõe um setting específico, a área da ilusão, uma área que se situa
“entre a criatividade primária e a percepção objetiva baseada no teste da
realidade”.[65]
Neste sentido os fenômenos transicionais “representam os primeiros estádios do
uso da ilusão, sem os quais não existe, para o ser humano, significado na idéia
de uma relação com um objeto que é por outros percebido como externo a esse
ser”.[66]
Trata-se de objetos que se situam numa área neutra de experimentação, onde
mundo interno e mundo externo se sobrepõem. Uma fase necessária para que possa
acontecer a passagem para a desilusão, uma experiência geralmente associada ao desmame. Desta
forma, como diz Winnicott; “o palco está pronto para as frustrações” e para a
aceitação da realidade.[67]
Novidade da teoria de Winnicott
A teoria do desenvolvimento de Winnicott introduz um elemento novo em relação aos desenvolvimentos anteriores da teoria psicanalítica, inclusive da própria teoria kleiniana, da qual ele depende. Para Klein, os objetos internos vão se constituindo gradativamente através dos movimentos pulsionais do bebê, que começa a interagir com a realidade externa, num processo de projeção e introjeção (pulsão oral e anal). Para Klein, contudo, o acento cai sobre o mundo interno do bebê, restando ao mundo externo apenas confirmar ou contradizer suas fantasias internas que se originam a partir dos instintos (pulsão de morte e de vida). Para ela, o equilíbrio depende muito mais de uma capacidade inata do bebê de integrar os dois movimentos pulsionais, levando-o a se equilibrar gradativamente entre posição esquizo-paranóide e posição depressiva, num movimento que envolve, inicialmente, agressão ao objeto percebido como cindido, e, num estágio de desenvolvimento sucessivo, quando o objeto pode ser percebido em sua totalidade, culpa e reparação.Winnicott, embora assuma vários elementos da teoria kleiniana, discorda abertamente da tese do inatismo e não aceita o conceito de pulsão de morte. Segundo
meu ponto de vista, tanto Freud como Klein desviaram-se (...) e refugiaram-se
na hereditariedade. O conceito de instinto de morte poderia ser descrito como
uma reafirmação do princípio do pecado original. Já tentei desenvolver o tema
de que tanto Freud quanto Klein evitaram, assim procedendo, a implicação plena
da dependência e, portanto, do fator ambiental. Se a dependência realmente
significa dependência, então a história de um bebê individualmente não pode ser
escrita apenas [o grifo é meu] em termos do bebê. Tem de ser escrita também
[o grifo é meu] em termos da provisão ambiental.[68] Portanto, mesmo mantendo o conceito de fantasia e de
objeto interno, Winnicott introduz a idéia de que há um enriquecimento do mundo
interno a partir do mundo externo e isto permite ao indivíduo enfrentar o
imenso choque da perda da onipotência. A respeito da fantasia, ele observa que
não é algo que o indivíduo cria para lidar com as frustrações da realidade
externa, a fantasia é “mais primária que a realidade e o enriquecimento da
fantasia com as experiências do mundo depende da experiência da ilusão”.[69]
No entanto, para que a ilusão se produza “é necessário que um ser humano se dê
ao trabalho de trazer o tempo todo o mundo até o bebê, de forma compreensiva e
de maneira limitada”.[70]
Desta forma, o objeto subjetivo, criado pela atividade alucinatória do
bebê, passa a se relacionar gradativamente a objetos objetivamente
percebidos, mas sempre a partir de uma provisão ambiental suficientemente boa.
“Não há possibilidade alguma de um bebê progredir do princípio de prazer
para o princípio de realidade ou no sentido, e para além dela, da identificação
primária [e aqui Winnicott se refere explicitamente à teoria freudiana da obra Ego
e id] a menos que exista uma mãe suficientemente boa”.[71] Uma mãe é boa na
medida em que é capaz de se adaptar ativamente ás necessidades do bebê,
reduzindo gradativamente esta capacidade à medida que o bebê se torna capaz de
tolerar a frustração.
A partir das considerações feitas até aqui, podemos agora
abordar as questões apresentadas no início do nosso estudo. Em primeiro lugar,
nos perguntávamos se o self é
construído de fora para dentro, ou se é construído de dentro para fora. Jung chama a atenção para o valor
individualizador, por assim dizer, do self, pois é a partir do self
que o processo de individuação acontece, mas, ao mesmo tempo, ele estabelece
uma ponte entre o si-mesmo e o universal, o coletivo. Seu conceito de
universal, contudo, não está relacionado ao mundo externo e aos seus padrões
morais, ideais e leis gerais, rejeitados pelo homem contemporâneo como cálices
amargos, fonte de exclusão e de discriminação, como faz notar Taylor. Por
estar ligado à concepção de inconsciente coletivo, o self junguiano nada
tem a ver com esses referenciais que apontam para um ser humano ideal, ora a
partir de uma pretensa possibilidade de perscrutar a essência do ser e as leis
universais de origem divina; ora duvidando dessa possibilidade, mas acreditando
numa idéia de homem que vai se formando ao longo dos séculos, e que, por sua
vez, é construtora da consciência humana; ou, de um homem que se faz a partir
da história; ou ainda de um homem que se faz a partir das próprias estruturas
da linguagem. O conceito de inconsciente coletivo traz uma instância nova, que
supera a consciência limitada do eu. O self seria, neste sentido, um
portal que abre a consciência sobre um universo Inconsciente
inexplorado, no qual os opostos se unem e o indivíduo se percebe como único e,
ao mesmo tempo, como parte de uma energia vital poderosa. A visão junguiana nos permite postular a existência de
uma instância psíquica que faz a ponte entre o interno e o externo, entre o
mundo da consciência e o inconsciente, tendendo à integração de elementos
inicialmente dissociados no âmbito psíquico individual. Neste sentido, ele
recupera o sentido dialógico do self analisado por James e Wiley, que
por sua vez retoma Pierce e Mead. Este núcleo psíquico, contudo, não condena o
homem ao individualismo, pois ele está estritamente relacionado com uma
dimensão mais ampla, coletiva e, de certa forma universal. Trata-se de uma
identidade que nada tem a ver com padrões morais, mas relacionada a algo mais
profundo, mais essencial, ao qual os padrões morais também estão submetidos.
Poderíamos chamar isso de natureza humana? O termo está sem dúvida desgastado
por séculos de contendas filosóficas. Talvez possamos falar num núcleo vital
primário, inconsciente, que de vez em quando atinge a consciência e se expressa
em formas culturais definidas, na linguagem, na história e em sistemas éticos
determinados. O self seria portanto o elo que introduz o
indivíduo nessa experiência vital, fazendo com que ele se perceba como
existente e não apenas existido, vivo e não apenas vivido, por alguém ou por
algo externo a ele. Nesse sentido, a contribuição de Winnicott é fundamental
para perceber a maneira como o self se constitui. O ser humano só pode
chegar a ser ele mesmo, a partir de um olhar, de um outro, que possa espelhar
sua criatividade primária, num outro que o ajude a perceber que ele existe, no
sentido literal da palavra (emergir do ser). Sem fazer a experiência de poder
criar o ser, o homem não passa a existir como indivíduo. Ele poderá ser
existido, desenvolvendo aquilo que Winnicott e outros definem como falso self,
sendo um espectral, como diria Safra. Podemos nos arriscar a dizer que
uma verdadeira moral deve aproximar o ser humano dessa experiência primária e
não apenas se tornar um código (no sentido usado hoje pela informática),
uma programação para executar uma tarefa no mundo. Uma moral verdadeira deve
pôr o ser em contato com a possibilidade de criar a partir do que já foi criado
pela história humana, no decorrer dos séculos. Esta primeira abordagem permite
a sucessiva, que supõe a frustração e a adaptação. Neste caso, porem, a
adaptação não é uma experiência de self alienado, mas pode se tornar uma
experiência de realização do self, que, como Jung dizia, uma vez que se
reconhece, pode até renunciar a si mesmo. Como parece insinuar Freud, podemos ainda conceber o self
como uma parte
específica da mente, caracterizada por atributos e funções especiais. Além
de permitir uma ponte entre consciente e inconsciente, uma função importante do self é estabelecer a continuidade
temporal, que garante ao indivíduo a unidade para além da fragmentação do
espaço e do tempo. Como esclareceu Wiley, esta função se estende à
possibilidade do ser humano se relacionar com a atividade simbólica, integrando
em si o objeto, o significado e o próprio intérprete. Nos perguntávamos no início deste trabalho se o self tem algo a ver com o caráter, com a
personalidade moral de um indivíduo. De certa forma diria que sim, pois o self
é a maneira única de uma pessoa existir no mundo. Inclusive uma maneira
criativa de abordar as instâncias morais, no emergir da estrutura superegóica.
Isto evidentemente supõe uma capacidade por parte do self de fazer a
ponte entre consciente e inconsciente, de entrar em contato com os conteúdos
internos e de elaborá-los, numa compreensão sempre nova, numa capacidade
paradoxal de integrar elementos opostos: instintos de vida e de morte, desejos
inconscientes e instâncias da realidade, objetos internos e objetos externos,
as fantasias internas e a ambígua opacidade da realidade externa. Este, diga-se
de passagem, é, a meu ver, o papel da análise hoje. Contudo, não quero dizer
simplesmente que a pessoa se constitui a partir de normas e leis morais
externas. A identidade pessoal é muito mais do que isso. Uma relação sélfica
com o meio-ambiente é muito mais complexa. Como frisa Winnicott, ela surge de
uma criação original, inicialmente a partir da alucinação e, depois, de um
brincar com a matéria amorfa, num emergir criativo de objetos internos,
subjetivamente criados e, aos poucos, descobertos, na relação com o
meio-ambiente, em sua consistência objetiva de objetos não-eu. E aqui
entra um elemento importante. A identidade pessoal do self se constrói
na relação. Não numa relação abstrata com o meio-ambiente, mas numa relação
pessoal, marcada pelo amor, pela capacidade do meio-ambiente conter o sujeito e
interagir com ele de forma adequada, no respeito de sua criatividade originária
e única. Um meio-ambiente que não seja invasivo, que saiba respeitar o devaneio
e o brincar. Podemos vislumbrar nisso não apenas uma indicação pediátrica para
as futuras mães, mas também um padrão educativo que deve continuar na escola,
chegando a informar as relações de trabalho e as relações entre os vários
grupos sociais, étnicos e religiosos. Utopia? Poderia tratar-se de uma utopia
se estivéssemos falando de algo abstrato, no entanto, estamos falando do ser
humano em sua concretude, estamos falando da possibilidade do homem se tornar
humano. Winnicott postula um ambiente suficientemente bom, para
que o self possa se constituir. Percebemos pelas análises de Harvey e
Rosen que o nosso ambiente está longe de ser suficientemente bom. Ele é
invasivo, ameaçador, priva o homem do seu desejo e o joga numa situação de no
sense, de esvaziamento de sentido, de não realidade, situações que Gilberto
Safra descreve com pertinência a partir de sua experiência clínica. Cabe a
pergunta se, para uma mãe que vive neste contexto, permanentemente invadida
pelo mundo externo, ainda é possível efetuar a mediação, ser continente,
controlando o estresse e a ansiedade. Dito de outra forma, num mundo onde
tendem a se impor padrões de comportamento cada vez mais psicóticos (uso este
termo levando em conta a perda da dimensão de realidade que está envolvida nos
fenômenos acima analisados), o ambiente, e em particular quem exerce a função
materna, risca de não poder proporcionar ao self em construção um
habitat adequado e “suficientemente” bom. O resultado é a construção do falso self,
que, ao multiplicar-se, cria um inferno dantesco, onde a humanidade está em
busca de algo que parece estar irremediavelmente perdido no faiscar dos anúncios
publicitários, nos estereótipos de comportamento, no ir e voltar caótico e sem
sentido do trânsito, no pulsar dos bits e na perda de sentido dos bytes. Parafraseando
Dante Alighieri, o nosso destino parece ser caminhar nessa imensa
selva obscura, dominada pelo fantasma da violência, onde o caminho (do self)
foi perdido.
[1] C. TAYLOR, As fontes do self, Loyola, S. Paulo, 1997. [2] Id., Ibid., p. 661. [3] Citado no verbete “Self” de J. MIELDS in Dicionário de Psicologia, Vol. 3, Loyola, São Paulo, 1982, p. 290. [4] Citado no verbete “Self” de J. MIELDS in Dicionário de Psicologia, Vol. 3, Loyola, São Paulo, 1982, p. 290. [5] N. WILEY, O self semiótico, Loyola, São Paulo, 1996. [6] Id., Ibid., pp. 223-224. [7] Ao fazer um breve apanhado sobre o conceito de self em Jung, Winnicott indica, como uma das melhores contribuições sobre o tema, o artigo de M. FORDHAM, “The empirical foundation and theories of the self in Jung´s work” in Journal of Analytic Psychology (1963), 8 (cf. Explorações psicanalítica, Artes Médicas, Porto Alegre, 1994, p.370). [8] Para este conceito nos referimos ao verbete “Se” [si-mesmo] in P. F. PIERI, Dizionario junghiano, Bollati Boringhieri, Torino, 1998, pp. 6511-657 (a obra está sendo traduzida pela editora Paulus). Na exposição do conceito junguiano de self, uso o termo si-mesmo que é usado na tradução das obras de Jung em português para indicar o self. [9] O conceito de superego como lei geral pode parecer um tanto estranho para um psicanalista, pois para Freud o superego não se identifica pura e simplesmente com a lei e com as normas culturais, mas é uma instância psíquica, derivada de uma interiorização das figuras paternas e, portanto, carregada de elementos inconscientes. Um texto de Jung citado no verbete mostra, a meu ver, uma compreensão do superego que não era exatamente aquela freudiana. Referindo–se ao fato do ego estar subordinado a instâncias superiores ele observa: “Tais instâncias não são eo ipso equiparáveis a uma consciência moral coletiva como Freud queria com o seu superego, e sim condições psíquicas a priori do homem, não empiricamente adquiridas” (p. 653). A tradução dos textos citados é minha. [10] Cf.
“Introdução do editor inglês” (S. FREUD, “Ego e Id” in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund
Freud, Vol. XIX, Imago, Rio de Janeiro, 1996, pp. 19-20). [11] As considerações a seguir foram extraídas do verbete “Se” in Dizionario di psichiatria, Astrolabio, Roma, 1979, p.686. [12] H. KOHUT, Análise do self, Imago, Rio de Janeiro, 1988, p. 14. [13] Id. Ibid., p. 14. [14] Id. Ibid., p. 14. [15] Id. Ibid., p. 14. [16] Id. Ibid., p. 14. [17] Cf. Id. Ibid., p. 108. Na realidade
este é um conceito que Kohut pega emprestado de Hartmann (Ego, Psychology
and the problem of adaptation, International University Press, Nova Iorque,
1958 e “On rational and irrational action” in Essays on Ego Psychology, International
University Press, Nova Iorque, 1964, pp. 37-68). [18] O texto citado em Dizionario di psichiatria foi extraído da obra de J. A. GEDO & A. GOLDBERG, Modelli della mente, Astrolabio, Roma, 1975. [19] Cf. o verbete “Se” in Dizionario di psichiatria, Astrolabio, Roma, 1979, p. 687. [20] Esta é também a opinião de Winnicott (cf. Explorações psicanalítica, Artes Médicas, Porto Alegre, 1994, p.371). [21] D. HARVEY, Condição pós-moderna, Loyola, São Paulo, 1992, p. 293. Apesar de ter sido publicada em 1989, esta obra tornou-se um ponto de referência que me parece ainda válido para a compreensão da situação psíquica do homem contemporâneo. [22] Harvey cita, a título de exemplo, os sistemas de entrega just-in-time, voltados para a redução de estoques, uma tendência que as novas tecnologias de informação e o comércio eletrônico equacionam com a personalização do atendimento, centrada nas práticas do Customer Relationship Management (CRM), associada à Total Quality Management. [23] Id., Ibid., p. 257. [24] Cf., por exemplo, o capítulo “A indústria cultural: o esclarecimento como mistifiação das massas ” in T. ADORNO & M. HORKHEIMER, Dialética do esclarecimento, Zahar, Rio de Janeiro, 1985, pp. 112-156. [25] Sobre este tema cf. o meu ensaio “O esvaziamento dos símbolos” (publicado no meu site: http://sites.uol.com.br/rgirola). [26] A este respeito harvey remete aos trabalhos de Toffler e Simmel, sobre os impactos psicológicos da sobrecarga sensorial. [27] Citado em D. HARVEY, Op. Cit., p. 56. A análise à qual Harvey remete é extraída do artigo de F. JAMESON, “Postmodernism, or the cultural logic of late capitalism” in New Left Revue (146), pp. 53-92. [28] Citado em Id., Ibid., p. 56. [29] Citado em Id., Ibid., p. 57. [30] Citado em Id., Ibid., p. 57 e extraído da obra The Anti-Oedipus, p. 245. [31] Cf. “Tecnologia cansa” in Veja (03/11/00, no 45), pp. 11-15. [32] G. SAFRA, A face estética do self, Unimarcos Editora, São Paulo, 1999. [33] Id., Ibid., p. 13. [34] Id., Ibid., p. 14. [35] Id., Ibid., p. 14. [36] Id., Ibid., p. 20 (nota 3). [37] “Percebemos a importância vital da provisão ambiental, especialmente no início mesmo da vida infantil do indivíduo” (Cf. D. W. WINNICOTT, “A criatividade e suas origens” in O brincar & a realidade, Imago, Rio de janeiro, 1975, p. 97). [38] D. W. WINNICOTT, “Desenvolvimento emocional primitivo” in Textos selecionados: da Pediatria à Psicanálise, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982, p. 273. [39] Id., Ibid., p.274. [40] “Postulamos uma não-integração primária” (cf. Id., Ibid., p.275). Esta tese é retomada mais tarde (1952), em “Psicose e cuidados maternos”, com outras palavras: “Inicialmente, o indivíduo não é a unidade” (cf. D. W. WINNICOTT, “Psicose e cuidados maternos” in Textos selecionados: da Pediatria à Psicanálise, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982, p. 378). [41] Id., Ibid., p.276. [42] “Não importa para ele [o bebê] ser muitos pedaços ou um ser inteiro, viver no rosto da mãe [espelhado portanto] ou em seu próprio corpo, desde que, de tempos em tempos, ele se torne uno e sinta algo” (cf. Id., Ibid., p.276). [43] Id., Ibid., p.277. [44] Id., Ibid., p.276. [45] Cf. D. W. WINNICOTT, “Psicose e cuidados maternos” in Textos selecionados: da Pediatria à Psicanálise, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982, p. 379. [46] Cf. Id., Ibid., p. 380. [47] Neste sentido, parece-me que uma certa organização na determinação dos horários do bebê, por parte de quem exerce o cuidado materno, pode ser significativa, ajudando a tornar menos invasiva a apresentação do meio externo. [48] Cf. Id., Ibid., p. 376. [49] D. W. WINNICOTT, “Desenvolvimento emocional primitivo” in Textos selecionados: da Pediatria à Psicanálise, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982, p. 280. [50] D. W. WINNICOTT, “Observação de bebês em situação estabelecida” in Textos selecionados: da Pediatria à Psicanálise, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982, p. 279. [51]D. W. WINNICOTT, “Objetos transicionais e fenômenos transicionais” in Textos selecionados: da Pediatria à Psicanálise, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982, p. 402. [52] D. W. Winnicott, em O brincar & a realidade, Imago, Rio de Janeiro, 1975, pp. 98-99. [53] Id., Ibid., p. 113. [54] Id., Ibid., p. 114. [55] Id., Ibid., p. 114. [56] Id., Ibid., p. 115. [57] D. W. Winnicott, em O brincar & a realidade, Imago, Rio de Janeiro, 1975, p. 80. [58] Id., Ibid., p. 81. [59] Id., Ibid., p. 63. [60] Id., Ibid., p. 63. [61] Cf. Id., Ibid., p. 54 e 81. [62] Sobre o uso do brincar na clínica cf. Id., Ibid., pp. 83-93. [63] As considerações a seguir foram extraídas do texto de 1951 “Objetos transicionais e fenômenos transicionais” in Textos selecionados: da Pediatria à Psicanálise, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982, pp. 389-408. [64] Cf. Id., Ibid., p. 394. [65] Cf. Id., Ibid., p. 402. [66] Cf. Id., Ibid., p. 402. [67] Cf. Id., Ibid., p. 404. [68] D. W. Winnicott, em O brincar & a realidade, Imago, Rio de Janeiro, 1975, p. 102. [69] Cf. D. W. WINNICOTT, “Desenvolvimento emocional primitivo” in Textos selecionados: da Pediatria à Psicanálise, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982, p. 280. [70] Id, Ibid., p. 280. [71] D. W. WINNICOTT, “Observação de bebês em situação estabelecida” in Textos selecionados: da Pediatria à Psicanálise, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982, p. 151.
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